Dino, o Maranhão não tem nada a ver com a falta de decoro no STF
Questões locais não podem ser utilizadas como escudo para minimizar críticas por falta de postura no Supremo
Sou maranhense como o excelentíssimo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino. E tenho orgulho disso.
Nascemos na mesma terra de Zeca Baleiro, Alcione, Gonçalves Dias, Aluísio de Azevedo e Ferreira Gullar. É uma terra de músicos, poetas, escritores e personagens que ajudaram a construir a cultura brasileira. Uma terra que, como tantas outras do Nordeste, ainda carrega nas costas o preconceito de quem confunde distância do eixo Rio-São Paulo-Brasília com falta de importância, de conhecimento ou de civilização.
Eu mesmo já fui vítima desse preconceito. Em Brasília, não é exatamente uma novidade perceber o olhar enviesado de quem descobre que o interlocutor nasceu no Maranhão. Já ouvi e presenciei comentários que, em outras circunstâncias, talvez merecessem uma resposta mais contundente. Inclusive de fontes importantes. Preferi ignorar. Segui em frente.
A vida, felizmente, também oferece o contraponto. Tenho grandes amigos gaúchos e catarinenses — e, por uma dessas ironias que desmontam teorias simplistas sobre regionalismo, duas das bancadas com as quais mais me relaciono no Congresso são justamente as do Sul.
Em post nas redes sociais, ministro Flávio Dino decidiu interpretar parte das críticas à sua atuação na Corte como manifestação de preconceito regional. Ele afirmou enxergar “ódio” à sua procedência e classificou determinadas manifestações como de “matriz racista”. Entre os exemplos citados por ele estão expressões como “jurista de província” e “oratória grandiloquente de província”.
É possível, evidentemente, que existam manifestações preconceituosas. Mas não é esse o caso.
As críticas mais duras à participação de Dino na sessão do STF que mergulhou a Corte em uma crise institucional não partiram apenas de adversários políticos ou de setores que tradicionalmente atacam o Supremo. O episódio envolveu uma discussão com o próprio presidente da Corte, Edson Fachin, em uma sessão marcada por interrupções, acusações e tensão entre os ministros. As críticas vieram até do presidente Lula. Lula, nordestino como Dino e eu.
Dino, naquele ambiente, recorreu a Aristóteles para – erroneamente – discutir ironia, citou Thomas Hobbes e chegou a recomendar a Fachin um vídeo do humorista Fábio Porchat. Tratou de forma jocosa as interpelações de Fachin em um movimento de extrema gravidade institucional.
O decoro de um ministro não pode ser medido pela sua certidão de nascimento. Um ministro do Supremo não está sentado ali como representante do Maranhão, de Pernambuco, do Sul, do Nordeste ou de qualquer outro pedaço do país. Está ali como integrante de uma instituição nacional. Sua origem pode explicar sua trajetória. Não pode servir como escudo contra a críticas.
Se existe uma característica que muitos maranhenses reconhecem como parte da própria identidade cultural é justamente a educação, a cordialidade, a elegância no trato. É claro que isso não é atributo exclusivo de nenhum povo — e muito menos uma característica genética ou universal. Mas é uma qualidade frequentemente associada ao modo de ser maranhense.
Foi por isso que causou estranhamento ver justamente um ministro maranhense protagonizar uma sessão tão carregada de ironias, interrupções e confrontos. Alguns, desnecessários.
Não se trata de exigir silêncio de um ministro. Trata-se de exigir decoro e institucionalidade. Algo que, por exemplo, Dino poderia ter aprendido com José Sarney. Seu, suposto, arqui-inimigo local.
O Maranhão tem uma história grande demais para ser reduzida a isso. E Flávio Dino sabe disso.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)