O animal que consegue sobreviver congelado durante o inverno e retomar suas funções quando a temperatura volta a subir
Glicose, ureia e redução extrema do metabolismo permitem ao anfíbio suportar meses de frio intenso e voltar à atividade
Em florestas frias da América do Norte, um pequeno anfíbio enfrenta o inverno de uma maneira extrema. A rã-da-madeira, Rana sylvatica, pode tolerar a formação de gelo em grande parte da água do corpo, interromper temporariamente a respiração e os batimentos cardíacos e recuperar essas funções depois do descongelamento, graças a adaptações bioquímicas que protegem suas células.
Como a rã-da-madeira consegue sobreviver parcialmente congelada?
Quando a temperatura cai abaixo do ponto de congelamento, cristais de gelo começam a se formar principalmente nos espaços externos às células. Parte considerável da água corporal pode congelar sem destruir os tecidos. Durante esse período, circulação, respiração e movimentos tornam-se praticamente imperceptíveis, enquanto o metabolismo permanece profundamente reduzido.
A capacidade não significa que cada célula possa simplesmente congelar por dentro. O gelo intracelular seria extremamente danoso. Por isso, o organismo direciona água para fora das células e mobiliza substâncias protetoras que diminuem os efeitos da desidratação e da formação de gelo ao redor dos tecidos.
O que protege a rã-da-madeira quando o gelo começa a se formar?
Um dos mecanismos mais importantes envolve a glicose. Assim que o congelamento começa, o fígado quebra rapidamente o glicogênio armazenado e libera grandes quantidades de glicose na circulação. Esse açúcar entra nos tecidos e funciona como crioprotetor, ajudando a limitar danos às membranas e reduzindo a quantidade de gelo formada.
A ureia também participa dessa proteção, especialmente em populações de regiões muito frias. Antes do inverno, sua concentração pode aumentar e colaborar com a estabilização celular. Populações subárticas apresentam sistemas crioprotetores particularmente eficientes, resultado das condições severas enfrentadas durante meses.
- Glicogênio do fígado é convertido rapidamente em glicose.
- A glicose alcança diferentes órgãos e tecidos.
- A ureia também contribui para a proteção celular.
- O metabolismo cai drasticamente enquanto o animal permanece congelado.
Este vídeo mostra a impressionante tolerância ao congelamento da rã-da-madeira e sua recuperação após o aquecimento.
Quanto frio a rã-da-madeira realmente consegue suportar?
A resistência varia conforme a população. Experimentos com indivíduos de regiões temperadas registraram sobrevivência após congelamento em temperaturas de alguns graus abaixo de zero, enquanto populações do Alasca demonstram tolerância muito maior. Estudos relatam animais suportando temperaturas corporais próximas de -12 °C em condições controladas.
No ambiente natural, indivíduos de populações subárticas podem permanecer expostos a temperaturas abaixo do ponto de congelamento durante muitos meses. Pesquisas acompanharam rãs em abrigos de inverno por aproximadamente seis meses consecutivos, mostrando que a adaptação envolve tanto resistência fisiológica quanto a escolha adequada do local de hibernação.
O animal fica realmente morto enquanto permanece congelado?
Não. Apesar da aparência imóvel, trata-se de uma suspensão extrema das funções, e não de morte seguida de retorno à vida. O coração pode parar temporariamente, a respiração cessa e a circulação fica interrompida, mas as células permanecem biologicamente viáveis graças aos mecanismos de proteção contra gelo, desidratação e falta de oxigênio.
Quando a temperatura sobe, o descongelamento ocorre gradualmente. Órgãos importantes, como coração e fígado, estão entre os primeiros a recuperar suas condições funcionais. A descrição do National Park Service sobre a adaptação da espécie mostra como esses animais atravessam o inverno e voltam à atividade quando chega a primavera.

Que números revelam os limites dessa adaptação?
Experimentos mostram que a duração e a intensidade do congelamento fazem diferença. Em um estudo, jovens congelados a -1,5 °C sobreviveram bem por três ou nove dias, enquanto apenas metade resistiu a 28 dias nessas condições. Quanto maior o período congelado, mais lenta também foi a recuperação de funções como circulação, respiração e movimentos.
As populações do extremo norte apresentam desempenho muito superior. Essa diferença mostra que não existe um único limite válido para toda a espécie. Genética, aclimatação sazonal, concentração de crioprotetores, velocidade de resfriamento e condições do abrigo influenciam diretamente a sobrevivência.
Por que a rã-da-madeira interessa tanto aos cientistas?
A rã-da-madeira é um dos principais modelos usados para estudar tolerância ao congelamento em vertebrados. Pesquisadores investigam como suas células resistem simultaneamente à formação de gelo, desidratação, redução extrema do metabolismo, falta temporária de circulação e estresse oxidativo durante o descongelamento.
Compreender esses mecanismos ajuda a ampliar o conhecimento sobre preservação de tecidos e sobrevivência celular em condições extremas. O animal não desafia as leis da biologia ao “voltar dos mortos”; sua extraordinária capacidade está justamente em permanecer vivo enquanto funções normalmente associadas à vida ativa ficam temporariamente suspensas.
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