Moraes não é o STF
Ministros do Supremo têm a oportunidade de começar a sanear o tribunal após alguns dos seus membros se protegerem atrás da instituição
Ainda há quem diga por aí que o Supremo Tribunal Federal (STF) foi essencial para a manutenção da democracia no Brasil nos últimos anos. Mesmo reconhecendo que o governo Jair Bolsonaro foi uma bagunça, tumultuado pela pandemia de coronavírus, e que o ex-presidente fez ameaças públicas a mais de uma instituição, essa interpretação da história recente já envelheceu mal.
Com o passar do tempo, vai ficando cada vez mais claro que alguns ministros enrolados do STF se aproveitaram do ímpeto golpista de Bolsonaro para envernizar de virtude e boas intenções o que sempre foi uma tentativa de se proteger daquilo que não poderia ser descoberto.
O marco dessa autoproteção — e não proteção da instituição STF, como se alega — é o inquérito das fake news, criado por Dias Toffoli em 2019 e entregue a Alexandre de Moraes (foto).
A censura de reportagem de Crusoé naquele mesmo ano já deixava evidente que o objetivo era proteger ministros, e não o STF. E essa distinção precisa ser martelada no momento em que os ministros do Supremo se deparam com a perspectiva de investigar um dos seus.
Degradação
O ambiente no STF se tornou tão confortável nos últimos anos, sob o escudo do inquérito das fake news, que aquele ministro destacado para proteger os colegas se sentiu livre para tratar dos negócios da esposa, no escritório de advocacia da família, como mostram as investigações da Polícia Federal.
Esse sempre foi um problema no STF, com suas famílias jurídicas influentes e inevitáveis para quem está muito enrolado. Mas, desta vez, os assuntos familiares se cruzaram, por obra do destino, com o maior caso de corrupção do momento, e o problema tomou uma proporção inédita.
Para tentar escapar da enrascada em que se meteu, Moraes participa de articulações políticas, mediando encontros em sua própria casa e degradando ainda mais a instituição que diz defender.
Os ministros do STF se defrontam, agora, com uma verdadeira oportunidade de defender a democracia e a República brasileiras, após dois dos comandantes das Forças Armadas negarem vazão ao ímpeto golpista de Bolsonaro e seus aliados — o Supremo só chegou depois.
Um STF que serve apenas para proteger os seus ministros não serve para nada.
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