Primeira região do Brasil a conquistar Denominação de Origem para vinhos: a cidade gaúcha que também abriga o maior parque moveleiro do país
Vinhedos e tradição italiana continuam marcando a paisagem e a cultura local
Selos de origem existem há séculos na Europa para dizer que um vinho só pode se chamar assim se nascer em determinado pedaço de terra. No Brasil, esse tipo de certificação chegou tarde, e chegou primeiro em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha. A cidade que recebeu famílias italianas no fim do século XIX transformou parreirais em economia, virou o principal destino de enoturismo do país e ainda concentra a maior produção de móveis do Brasil.
Por que o Vale dos Vinhedos foi o primeiro do país a receber selo de origem?
Porque foi a primeira região a criar regras próprias de certificação. Segundo a Secretaria Municipal de Turismo de Bento Gonçalves, o Vale dos Vinhedos foi pioneiro no Brasil na busca por normas de certificação depois que as Indicações Geográficas de vinhos passaram a existir no país. Conquistou a Indicação de Procedência em 2002 e a Denominação de Origem em 2012, as primeiras do gênero em território brasileiro.
A área delimitada é pequena e dividida. São 72,45 km² espalhados por três municípios, Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul, e o conjunto integra oficialmente o patrimônio histórico e cultural do Rio Grande do Sul desde 29 de junho de 2012. Na prática, o selo funciona como uma assinatura: só pode usar o nome quem produz dentro dos limites e segue as regras acordadas.

Como a imigração italiana montou a economia do vinho na serra?
Com pequenas propriedades e trabalho de família, modelo que sobrevive até hoje. Conforme a Prefeitura de Bento Gonçalves, o município é conhecido como a Capital Brasileira da Uva e do Vinho, e a Serra Gaúcha responde pela maior região vitícola do país, com cerca de 40 mil hectares de vinhedos.
O relevo acidentado impede a mecanização pesada, então a colheita continua sendo feita em boa parte à mão, entre janeiro e março, no período conhecido como vindima. A poda acontece no inverno, em julho e agosto. Essa herança de imigração aparece em toda a região, tema que também marca outras vilas gaúchas com grandes conjuntos arquitetônicos italianos.

O que sustenta a economia da cidade fora das vinícolas?
Móveis, em escala nacional. De acordo com a Movelsul Brasil, feira promovida pelo Sindicato das Indústrias do Mobiliário de Bento Gonçalves (Sindmóveis), a cidade abriga a maior concentração de indústrias moveleiras do Brasil. O evento existe desde 1977 e é apontado pela organização como a maior feira de móveis da América Latina em área de exposição, número de expositores e visitantes profissionais.
A dimensão aparece nos números da última edição. Foram 300 marcas de nove estados expondo na cidade, com presença de importadores estrangeiros que buscam mobiliário brasileiro. É uma combinação incomum: a mesma serra que produz espumante premiado também abastece lojas de móveis em dezenas de países.
Quais roteiros levam o visitante ao interior do município?
Cinco rotas oficiais saem do centro e cruzam a zona rural, todas ligadas à história da colonização. Confira abaixo os principais passeios:
- Vale dos Vinhedos: o roteiro mais visitado da cidade, com dezenas de vinícolas abertas para degustação entre parreirais.
- Caminhos de Pedra: percurso rural de cerca de 12 km com casas de pedra da imigração, incluindo Casa do Tomate, Casa da Erva-Mate e Parque da Ovelha.
- Maria Fumaça: passeio de trem a vapor entre Bento Gonçalves, Garibaldi e Carlos Barbosa, com música italiana a bordo.
- Parque Cultural Epopeia Italiana: espaço temático instalado em antiga vinícola, que reconstitui a viagem dos primeiros imigrantes.
- Vale do Rio das Antas: rota de mirantes e paisagem de cânion, uma alternativa para quem quer natureza no lugar de taça.
Mais informações sobre os roteiros e a programação anual estão no portal da Secretaria Municipal de Turismo.
Quem sonha em conhecer Bento Gonçalves, vai curtir este vídeo do canal Minha Pequena Revolução, com mais de 460 mil inscritos, que visita o Vale dos Vinhedos, vinícolas e a Maria Fumaça.
Como é o clima de Bento Gonçalves ao longo do ano?
A cidade fica perto dos 690 metros de altitude e tem as quatro estações bem marcadas, condição que favorece o cultivo da uva. Chove em todos os meses, o verão é quente e o inverno registra mínimas de um dígito, com geada frequente no campo. Veja abaixo como o clima se comporta durante o ano:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. As condições variam de um ano para outro por causa de fenômenos naturais como o El Niño e a La Niña, então vale conferir a previsão atualizada antes de fechar a viagem.
Uma serra que aprendeu a assinar o próprio nome
O selo de origem fez pela cidade o que nenhuma campanha faria sozinha: transformou uma tradição de família em produto reconhecido dentro e fora do país. Ao lado disso, cresceu uma indústria de móveis que exporta para dezenas de mercados, sem que uma coisa apagasse a outra.
Você precisa conhecer Bento Gonçalves entre janeiro e março, quando a vindima toma conta das vinícolas e a serra inteira cheira a uva madura.
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