Governistas cobram Moraes, mas resistem a impeachment
Novos detalhes da relação com Vorcaro elevam pressão sobre ministro, mas não convencem governistas a embarcar no impeachment
Os novos detalhes da relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, revelados nesta terça-feira, 1º, elevaram o tom até entre governistas. Deputados ouvidos por O Antagonista cobraram explicações do ministro e defenderam a apuração do caso, mas evitaram aderir à ofensiva da oposição pelo impeachment.
Nenhum dos governistas ouvidos pela reportagem defendeu o afastamento de Moraes.
Para o deputado federal Chico Alencar (Psol-RJ), Moraes manteve relações “impróprias” e “indevidas” com Vorcaro.
“Aquele contrato do escritório da esposa do ministro com o Vorcaro devia ser sustado tão logo apareceram as denúncias contra ele. E, agora, essa relação que denota intimidade, até colocando o Moraes como conselheiro desse criminoso, é completamente inaceitável”, afirmou.
O psolista diz que Moraes “deve muitas explicações”.
“Não basta dizer que não respondeu [às mensagens do Vorcaro]. É claro que o fato de a Polícia Federal ter prendido o Vorcaro dois dias depois do diálogo final em que ele pede orientação ao Moraes para fugir do país mostra que tudo que ele solicitou, inclusive proteção do diretor-geral da PF e da PGR, não conseguiu, felizmente”.
Segundo o deputado, isso é “muito bom”, mas a conversa é, em si mesma, “completamente inadequada”.
Alencar defende que seja levantado o sigilo de toda a investigação envolvendo Vorcaro e o Banco Master, para acabar com os vazamentos de informações “a conta-gotas” e garantir transparência sobre o caso, inclusive em relação ao financiamento do filme “Dark Horse”.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cobrou Vorcaro por pagamentos destinados à produção do filme, que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
“E pau que dá em Chico dá em Francisco. Se o Moraes tem que se explicar, Flávio Bolsonaro também e muito”, afirmou o parlamentar do Psol.
O deputado federal Alfredinho (PT-SP), por sua vez, afirma que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso, expõe Moraes e protege Flávio Bolsonaro. Ainda assim, considera “extremamente grave” um ministro do STF estar envolvido em “caso tão grave”.
“Tem que apurar e punir os culpados”, disse.
Já um líder partidário governista ouvido sob reserva classificou a proximidade de Moraes com Vorcaro como algo “quase que insustentável”. Apesar da avaliação, ele não vê espaço para um impeachment neste momento e defende uma resposta institucional do próprio Supremo.
“Olhando só o fato, o que eu acho que tem que fazer é o que o Mendonça falou mesmo, levar para o plenário e o plenário todo do Supremo tomar uma atitude. A questão de impeachment a um mês da eleição, não sei se daria certo. Com dois terços do Senado em eleição. Mas levar para o plenário, eu acho que o Supremo tem que dar uma resposta. Coisa muito grave”, pontua.
Um deputado independente que também falou à reportagem sob reserva avalia que as novas revelações do caso Master podem aumentar a pressão eleitoral tanto sobre Lula quanto sobre Flávio Bolsonaro, a depender de como forem exploradas pelos campos adversários.
“Hoje foi um dia que saiu coisas ruins para os dois lados. Saiu a informação do ‘Dark Horse’ recebendo mais 1,6 milhão de dólares do Vorcaro após cobrança do Flávio, e saiu o Moraes mais enredado ainda na confusão”, ressaltou.
Na avaliação do parlamentar, porém, as revelações envolvendo Moraes têm potencial para atingir mais diretamente o governo.
“A questão do Vorcaro com o Moraes, na minha opinião, atinge mais o governo, pela proximidade do Moraes com o governo. E vai ser muito explorado, eu não tenho dúvida nenhuma. É uma história que pode render tanto eleitoralmente quanto policialmente”, afirmou.
Para esse deputado, as decisões de Mendonça no caso também têm viés político e atingem de maneira desigual os personagens envolvidos.
“Se ele estivesse fazendo [a investigação] dos dois lados, ele seria um grande herói da nação brasileira. Esse levantamento do sigilo agora é uma decisão só política. Caso contrário, ele estava indo para cima dos dois lados, porque tem dois lados. Está evidente”.
O líder do governo na Câmara, Paulo Pimenta (PT-RS), manifestou-se sobre as informações que vieram à tona na terça-feira por meio de um vídeo divulgado por sua assessoria de imprensa.
“Numa democracia sólida, nenhuma denúncia, por mais grave que ela seja, deve deixar de ser apurada. Não importa quem são os personagens, não importa que nós estamos à véspera duma eleição. Se tem candidato a presidente da República envolvido na gravíssima denúncia sobre as irregularidades que envolvem o Banco Master, ele tem que ser investigado”, iniciou.
Pimenta defendeu que a apuração alcance também os demais personagens citados no caso.
“E os demais personagens que estão aparecendo também devem ser investigados. As instituições devem encontrar a melhor forma de garantir à sociedade brasileira que essas investigações vão ser apuradas, que se garanta o amplo direito de defesa, que as pessoas possam se defender, mas aquelas que estão envolvidas em algum tipo de irregularidade devem ser punidas por isso, devem ser exemplarmente punidas por isso”.
“É assim que a gente fortalece as instituições, é assim que a gente fortalece a democracia e dessa maneira que eu entendo que o Brasil deve proceder”, prosseguiu.
Já o deputado federal Silvio Costa Filho (Republicanos-PE), ex-ministro do governo Lula, disse em entrevista ao Papo Antagonista que é preciso respeitar as instituições e acompanhar o desenrolar do processo.
“Eu espero que neste momento o STF tenha muita serenidade e equilíbrio, porque é o guardião da nossa Constituição. E eu tenho confiança que, ao final, a gente possa ter esse caso esclarecido. Eu acho que não é hora de fazer pré-julgamentos. É hora de observar efetivamente o que está acontecendo”, afirmou.
Costa Filho também cobrou uma manifestação do próprio Moraes.
“A gente observou o relatório que foi tornado público pelo ministro André Mendonça, e eu acho que agora cabe à Corte efetivamente fazer uma avaliação. E eu espero que o próprio ministro Alexandre de Moraes possa, naturalmente, se posicionar sobre o feito, porque eu acho que a sociedade brasileira precisa cada vez mais de transparência”.
A relação entre Moraes e Vorcaro
André Mendonça retirou nesta terça-feira o sigilo da investigação sobre Daniel Vorcaro que reúne mensagens enviadas pelo banqueiro ao ministro Alexandre de Moraes.
Três dias antes de ser preso pela primeira vez, em novembro do ano passado, o ex-dono do Banco Master manifestou, em mensagem, gratidão a Moraes. A informação consta em relatório da Polícia Federal (PF) que teve o sigilo retirado.
“Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nos tem uma divida de vida contigo e com a sua família. Muito obrigado por tudo. Agora é continuar na pegada pra conseguir concluir, se Deus quiser”, escreveu Vorcaro a Moraes em 14 de novembro de 2025.
A PF identificou um padrão de comunicação em que Vorcaro escrevia textos no aplicativo de notas do celular, fazia capturas de tela e, em seguida, as enviava pelo WhatsApp.
Além de cinco notas localizadas diretamente no chat mantido entre Vorcaro e o contato “Alexandre de Moraes BRASILIA”, a corporação encontrou no dispositivo do banqueiro outros 47 arquivos produzidos e enviados seguindo o mesmo padrão, totalizando 52 notas analisadas.
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