Reconhecida pelo Guinness, a cidade no centro do Rio Grande do Sul guarda rochas de 233 milhões de anos com os dinossauros mais antigos do mundo
As rochas guardam pistas de uma época muito anterior à presença humana
Quase todo mundo associa dinossauro a esqueleto gigante de museu, mas os primeiros deles eram bichos pequenos, bípedes e pouco impressionantes. As rochas que guardam esse começo ficam no centro do Rio Grande do Sul, em Santa Maria, e renderam à região um recorde mundial reconhecido oficialmente.
Por que o Guinness aponta o centro gaúcho como berço dos dinossauros?
Porque a datação não é dos ossos, e sim da rocha ao redor deles. Segundo o Guinness World Records, o sítio mais antigo do planeta com dinossauros já recuperados é a Formação Santa Maria, onde cristais de zircão foram datados em até 233,2 milhões de anos, no Triássico Superior.
A lista de espécies saída dessas camadas é longa e conhecida entre paleontólogos. O Staurikosaurus pricei, carnívoro da família dos herrerassaurídeos, foi o primeiro dinossauro descrito no Brasil. Ao lado dele apareceram nomes como Saturnalia tupiniquim, Buriolestes schultzi, Pampadromaeus barberenai e Gnathovorax cabreirai, quase todos bípedes de porte modesto, muito distantes da imagem dos grandes saurópodes que surgiriam dezenas de milhões de anos depois.

O que ainda sai do subsolo dessa região?
Muito mais do que dinossauro, na verdade. Conforme a Revista Pesquisa FAPESP, apenas cerca de 5% dos fósseis encontrados na Formação Santa Maria são de dinossauros, o restante corresponde a répteis antigos e a pré-mamíferos que dividiam o mesmo ambiente.
O material tem endereço. O Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica (CAPPA), ligado à Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), foi inaugurado em 2013 em São João do Polêsine, a menos de 50 km da cidade, no meio dos 250 km de extensão que a formação geológica alcança. A proximidade explica o ritmo das descobertas: as áreas de escavação ficam a poucas horas do laboratório, e boa parte do acervo aguarda estudo em prateleiras.

Onde a ferrovia deixou uma vila belga dentro de Santa Maria
A outra camada histórica é bem mais recente e está à vista. De acordo com a Prefeitura de Santa Maria, a estação da Viação Férrea teria sido inaugurada em 13 de outubro de 1895, e a posição geográfica transformou o município em um dos principais entroncamentos ferroviários do estado.
Daí nasceu a Vila Belga, conjunto de casas geminadas erguido pela companhia belga que administrava os trilhos para abrigar seus funcionários, hoje um dos raros núcleos operários preservados do país. A Prefeitura de Santa Maria informa que a chamada Mancha Ferroviária, que reúne a Vila Belga, a Gare e o entorno, entrou na lista de Patrimônio Ferroviário Nacional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). É o tipo de memória construída que também aparece em outras cidades gaúchas marcadas pela origem de sua formação.
Quem se fascina pelos dinossauros mais antigos do mundo vai curtir esse documentário do canal Elzinga, com mais de 501 mil visualizações, sobre os fósseis encontrados na região de Santa Maria:
Como é o clima de Santa Maria ao longo do ano?
O município fica na transição entre o planalto e o pampa, e isso se traduz em chuva bem distribuída nos doze meses e em contrastes fortes de temperatura entre as estações. Veja abaixo como o tempo se comporta em Santa Maria durante o ano:
Médias mensais de chuva com base na climatologia do Climatempo. As condições variam de um ano para outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, que alteram bastante o volume de chuva no Sul do país, então vale conferir a previsão atualizada.
Duas histórias guardadas no mesmo solo
Poucos municípios brasileiros conseguem contar, no espaço de poucos quilômetros, o começo dos dinossauros e o começo da industrialização de um estado. Em Santa Maria, as camadas do Triássico afloram em barrancos de bairros comuns, enquanto as casas dos ferroviários belgas continuam habitadas a alguns minutos dali.
O tempo geológico costuma parecer abstrato, mas fica concreto quando um bloco de arenito às margens de uma rodovia guarda o registro do momento em que um grupo de animais pequenos começou a caminhar sobre duas patas e mudou o rumo da vida na Terra.
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