Receita Federal ativa sistema que sabe o que tem na sua mala antes do raio-X
Como a Receita Federal sabe o que tem na sua mala antes do raio-X passar
A Receita Federal já usa inteligência artificial para analisar bagagens e encomendas no raio-X do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, desde dezembro de 2024. O sistema é ligado ao modelo Gemini, da Google Cloud, e identifica objetos suspeitos antes mesmo de um fiscal precisar abrir a mala. Com isso, o tempo de entrega de compras internacionais caiu de até dois meses para menos de uma semana.
O que é a inteligência artificial generativa que a Receita Federal usa?
A inteligência artificial generativa, ou seja, um tipo de IA capaz de criar respostas, imagens e análises a partir de perguntas em linguagem normal, chegou ao setor público brasileiro com força. No caso da Receita Federal, o modelo usado é o Gemini, desenvolvido pelo Google e rodado na plataforma Google Cloud.
O sistema foi integrado diretamente ao equipamento de raio-X do aeroporto. Isso significa que, ao passar pela máquina, a imagem da bagagem é lida pela IA em tempo real, e o fiscal recebe um alerta automático se houver algo irregular. A novidade foi apresentada pelo Google no Google Cloud Summit Brasil 2025, realizado nos dias 10 e 11 de setembro de 2025, em São Paulo.

Quais itens a IA consegue detectar no raio-X das malas?
A tecnologia foi treinada para reconhecer uma variedade de objetos que não podem entrar no Brasil ou que precisam de declaração especial. Os fiscais também podem fazer perguntas diretamente ao sistema usando palavras normais, sem precisar de nenhum comando técnico.
Por exemplo, um auditor pode simplesmente digitar algo como “existe alguma arma nessa mala?” e receber a resposta imediatamente. Veja o que o sistema é capaz de identificar:
Como o Programa Remessa Conforme se encaixa nessa mudança?
Essa tecnologia não surgiu do nada. Ela veio junto com uma mudança maior no jeito de fiscalizar encomendas internacionais. O Programa Remessa Conforme, criado pela Receita Federal em 2023, obriga lojas como Shein, Shopee, AliExpress e Amazon a enviar os dados das compras antes mesmo de o pacote sair do país de origem.
Com as informações chegando com antecedência, a Receita pode fazer a análise de risco antes da encomenda aterrissar no Brasil. A Portaria Coana nº 130/2023 regulamentou o programa e garantiu que as remessas aprovadas sejam liberadas com muito mais rapidez ao chegar. A IA no raio-X é, portanto, a última camada de verificação de um processo que começa muito antes da mala aterrissar.
O que mudou na prática para quem compra em lojas internacionais?
Antes da tecnologia, o Brasil recebia em média 800 mil encomendas por dia. Com tanta coisa chegando e pouca equipe disponível, o processo de fiscalização ficava congestionado e os pacotes ficavam parados por semanas. A demora era comum mesmo para produtos simples e sem irregularidade nenhuma.
Veja como era o processo antes e como ficou depois da implantação do sistema:
| Situação | Prazo de entrega | Status |
|---|---|---|
| Antes do sistema de IAFiscalização manual, sem dados antecipados | Até 2 meses | Muito lento |
| Após o Remessa Conforme (2023)Dados enviados antes da chegada do pacote | 1 a 2 semanas | Melhorou |
| Com IA no raio-X (desde dez. 2024)Análise automática integrada ao equipamento | Menos de 1 semana | Muito mais rápido |
Leia também: Erro comum ao carregar o celular: ligar na tomada antes ou depois?
A IA substitui o fiscal humano na hora de liberar ou barrar uma mala?
Não. A Política de Inteligência Artificial da Receita Federal, publicada em 2026, deixa claro que nenhum sistema de IA pode tomar decisões no lugar do auditor. O que a tecnologia faz é ajudar, ou seja, apontar suspeitas, alertar sobre irregularidades e responder perguntas. A palavra final é sempre do servidor público. A Receita Federal também criou uma função interna chamada Curador de IA Generativa, responsável por acompanhar e corrigir erros do sistema continuamente.
Isso é importante porque a IA pode errar. Por isso, todo caso sinalizado pelo sistema ainda passa pela análise de um auditor antes de qualquer ação. O Serpro, empresa pública de tecnologia do governo federal, apoia tecnicamente a Receita nessa integração. Segundo o auditor fiscal Pedro Frantz, a Receita já tem mais de 40 projetos ativos de IA em diferentes áreas.
Essa tecnologia deve se expandir para outros aeroportos?
A experiência em Guarulhos é pioneira no Brasil e também internacionalmente. O Google cita o caso da Receita Federal como um dos exemplos mais avançados de uso de IA pública na América Latina, ao lado de iniciativas similares no México. O sistema já mostrou que libera as bagagens com muito mais agilidade, melhora a segurança na entrada de itens proibidos e ainda aumenta a arrecadação de impostos, porque nenhuma encomenda passa sem verificação. O Programa Remessa Conforme inclusive ganhou um prêmio internacional em 2025 pela Comalep, convenção que reúne as aduanas de 19 países da América Latina, além de Portugal e Espanha.
Com o sucesso do projeto, a tendência é que a Receita expanda o uso da tecnologia para outros pontos de entrada do país. Por enquanto, quem viaja ou compra no exterior e passa por Guarulhos já convive com esse sistema, mesmo sem saber.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)