‘Vá cozinhar’, é o que sugere vídeo de Michelle sobre telefonema de Flávio Bolsonaro
Espero, sinceramente, que este fato não seja relativizado daqui para frente - até mesmo pela própria ofendida - em nome de uma suposta pacificação eleitoral
Há alguns anos, Michelle Bolsonaro era apenas a discreta esposa do então deputado federal Jair Bolsonaro. Hoje, preside o PL Mulher, participa das principais articulações eleitorais do bolsonarismo por todo o país e aparece com frequência nas pesquisas como um dos nomes mais fortes da direita para 2026.
Por isso, o vídeo de quase meia hora, divulgado pela ex-primeira-dama na quarta-feira, 24, acusando o próprio enteado, senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, de humilhá-la e desrespeitá-la, extrapola muito uma simples desavença familiar. É mais que roupa suja lavada fora do lar.
A ser exatamente como relatou Michelle, o telefonema de Flávio soou mais ou menos como um sonoro “Vá cozinhar e não me amole, mulher chata”. Tudo isso, obviamente, sem que a frase precisasse ser pronunciada de forma literal. Afinal, a frase “Você não entende nada de política”, para um bom entendedor, basta.
Política é coisa de homem?
Segundo Michelle – jocosamente apelidada de Micheque pelos petistas, em referência aos cheques depositados em sua conta corrente por Fabrício Queiroz, operador do esquema das rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj, o próprio bolsokid 01, entre ofensas e humilhações, teria lhe dito para se afastar do PL.
O episódio teria ocorrido após divergências sobre alianças do partido no Ceará. Michelle afirma ter sido “maltratada”, “desrespeitada” e “humilhada”, classificando a conversa como uma “punhalada”. Já Flavinho Rachamaster Tarantino Wonka negou, na quinta-feira, 25, ter pretendido ofendê-la e chegou a pedir desculpas públicas.
As escusas, contudo, soaram mais falsas que a explicação pelo telefonema ao “irmão” Daniel Vorcaro, pedindo, ou melhor, suplicando alguns milhões de dólares para o irmão biológico Dudu, supostamente pagar as despesas do filme Dark Horse. A questão vai muito além da péssima relação entre madrasta e enteado.
Machismo patriarcal
Durante séculos, no Brasil, as mulheres ouviram que “Seu lugar é na cozinha”, e cuidando da casa, dos filhos ou, no máximo, opinando sobre assuntos considerados “femininos”. Política, negócios e poder sempre foram territórios predominantemente masculinos e praticamente proibidos para mulheres.
O Brasil do século XXI avançou muito – ou nem tanto, vá lá -, mas continua carregando forte componente de machismo patriarcal e estrutural. Basta observar a sub-representação feminina nos Parlamentos, a violência cotidiana de gênero e a resistência, ainda hoje, à ascensão das mulheres a posições de comando.
Nesse contexto, chama ainda mais a atenção que a desqualificação política de Michelle tenha ocorrido justamente a partir de um grupo liderado pelo sobrenome Bolsonaro, cujo histórico não ajuda, afinal, o próprio Jair Bolsonaro é cercado de declarações que lhe renderam acusações de misoginia e machismo.
Retrospecto nada abonador
Em 2014, por exemplo, disse à então deputada Maria do Rosário que ela não merecia ser estuprada porque seria muito feia. Anos depois, já como presidente da República, mandou uma jornalista calar a boca durante uma entrevista e, em outro episódio, afirmou ter vontade de agredir uma repórter.
Além disso, em outros momentos, atacou profissionais mulheres da imprensa, utilizando expressões incompatíveis com o debate civilizado. Agora, justamente a mulher responsável por ampliar o bolsonarismo entre as eleitoras, é lembrada de que política, talvez, seja um assunto apenas para os filhos homens de seu marido.
Se Michelle, segundo Flávio e segundo ela mesma, com toda a popularidade, influência e o sobrenome que carrega, “não entende nada de política”, o que sobra para as demais mulheres brasileiras, que gostariam de participar – de forma legítima e para lá de justa – da política nacional?
Que as mulheres não se enganem
É possível que a resposta esteja justamente na reação da própria ex-primeira-dama ao expor publicamente a treta com o enteado, já que, ao menos em tese, Michelle não teria motivos robustos suficientes para minar a candidatura do rapaz. Ou seja, mulheres já não aceitam mais, caladas, ir para a cozinha.
Espero, sinceramente, que este fato não seja relativizado daqui para frente – até mesmo pela própria ofendida – em nome de uma suposta pacificação eleitoral bolsonarista. Até porque, para estes malucos, paz é como os tais três Is (imbrochável, imorrível e incomível): é impensável, inviável e impossível. Ao menos em longo prazo.
E também que, ainda que não produza grande efeito prático entre os fanáticos da seita – inclusive entre as fanáticas, se é que me entendem -, seja um sinal claro às mulheres brasileiras, politicamente independentes: Flávio Bolsonaro não é diferente, também nisso, do próprio pai. O fruto nunca cai longe do pé.
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