Crusoé: Ainda há limites?
As democracias não sobrevivem apenas porque possuem Constituições ou eleições periódicas. Elas também dependem de limites éticos que orientam a convivência pública
À primeira vista, o discurso de Michelle Bolsonaro pareceu apenas um desabafo. Mas talvez tenha sido algo mais profundo.
Em uma época em que a política parece dissolver todas as fronteiras em nome da conveniência, ela procurou reafirmar uma ideia simples: existem limites que não deveriam ser ultrapassados.
Não se trata apenas da recusa em apertar a mão de alguém que, pouco tempo antes, chamara Jair Bolsonaro de “ladrão de gasolina” e sua família de “ratos”. O gesto carregava um significado maior. Era a afirmação de que nem toda reconciliação é moralmente exigível e de que nem todo cálculo político justifica o esquecimento das ofensas, da palavra empenhada ou da própria dignidade.
As democracias não sobrevivem apenas porque possuem Constituições, tribunais ou eleições periódicas. Elas também dependem de fronteiras invisíveis: limites éticos que orientam a convivência pública e conferem sentido às instituições.
Esses limites são como as margens de um rio. Não impedem que a água siga seu curso; apenas lhe dão direção. Quando as margens desaparecem, o rio deixa de ser rio e transforma-se em inundação.
Algo semelhante parece ocorrer na política contemporânea.
As margens foram lentamente sendo erodidas.
Convicções cedem lugar às conveniências; adversários tornam-se aliados sem qualquer explicação pública; insultos são esquecidos conforme as necessidades do momento; princípios convertem-se em ativos negociáveis.
A política continua existindo, mas já não encontra facilmente seus próprios contornos.
Vivemos uma época em que a ética política se tornou, em muitos aspectos, pornográfica. Tudo é exposto, tudo é instrumentalizado, tudo pode ser negociado.
Desaparece o pudor, desaparece o constrangimento e, com eles, desaparece também a distinção entre o aceitável e o inaceitável.
É como uma casa cujas paredes mestras foram silenciosamente retiradas. Do lado de fora, ela continua aparentemente intacta. As portas ainda se abrem, as janelas permanecem no lugar e os moradores seguem entrando e saindo normalmente. Mas basta um leve abalo para revelar que sua estrutura já havia sido comprometida muito antes.
O mesmo acontece com a democracia.
As instituições podem continuar funcionando enquanto sua arquitetura moral se deteriora.
O verdadeiro colapso começa muito antes do desmoronamento visível: começa quando…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)