O BC na corda bamba entre cortar e convencer

09.10.2026

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O Antagonista
O BC na corda bamba entre cortar e convencer
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José Inácio Pilar
4 minutos de leitura 24.06.2026 08:50 comentários
Análise

O BC na corda bamba entre cortar e convencer

Copom cortou a Selic e mudou o horizonte de análise da inflação. A decisão foi técnica ou apenas uma saída conveniente?

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José Inácio Pilar
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O BC na corda bamba entre cortar e convencer
(Divulgação/Banco Central do Brasil)

A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada na terça-feira (23), confirmou o que o mercado financeiro temia: o Banco Central decidiu cortar os juros, mesmo reconhecendo que a inflação segue acima da meta e que os riscos inflacionários aumentaram. A contradição aparente gerou ruído, desconforto e perguntas sobre a consistência da autoridade monetária.

Na reunião de 17 de junho, o Copom reduziu a taxa básica em 0,25 ponto percentual, levando-a a 14,25% ao ano. O comunicado divulgado na ocasião foi considerado confuso, tornando a ata desta semana especialmente aguardada. Para parte do mercado, ela trouxe mais perguntas do que respostas.

O ponto mais polêmico foi a mudança no chamado “horizonte relevante”, o prazo que o BC usa para avaliar se a inflação caminha para a meta. A explicação, no entanto, tem lógica própria. Segundo a ata, para trazer a inflação à meta de 3% ainda em 2027, o Banco Central precisaria aplicar um choque forte na Selic e, em seguida, revertê-lo com cortes igualmente agressivos, o que, na avaliação do próprio BC, só geraria volatilidade excessiva e atrapalharia o trabalho de controlar os preços.

A saída encontrada foi esticar o prazo: o Comitê passou a olhar para o último trimestre de 2027, com o horizonte devendo migrar para o primeiro trimestre de 2028 na próxima reunião.

Trajetórias alternativas analisadas pelo Copom mostraram menor flutuação de produto e revelaram-se compatíveis com uma suavização macroeconômica, o que permitiria a convergência da inflação para o centro da meta no primeiro trimestre de 2028.

Outra novidade da ata é que o BC pode adotar períodos de estabilidade dos juros antes de retomar os cortes, um ciclo de alternância que substitui a ideia de queda contínua da Selic.

Para críticos, a manobra equivale a usar uma bengala para justificar o que se quer fazer de qualquer forma. Nesse sentido, a ata não trouxe o esclarecimento esperado pelo mercado e manteve a tônica de uma comunicação confusa.

O Comitê reclassificou o balanço de riscos como assimétrico para cima e, mesmo diante de uma projeção de inflação 0,7 ponto percentual acima da meta, optou pelo corte.

O BC, por outro lado, endureceu o discurso e admitiu pela primeira vez uma chance maior de a inflação subir do que de recuar. A ata elencou diversas fontes de pressão, desde a incerteza mundial gerada pelo conflito no Oriente Médio ao risco de uma segunda onda de alta nos preços do petróleo e de efeitos climáticos sobre a produção agrícola. Some-se a isso um ano eleitoral no Brasil, com incerteza sobre a política fiscal do próximo governo.

A leitura atual do mercado é de que o espaço para novos cortes ficou mais limitado, com expectativa de apenas mais uma redução de 0,25 ponto percentual até o final do ano. A decisão de agosto dependerá da evolução do conflito no Oriente Médio, dos preços do petróleo e do comportamento da inflação e das expectativas nos próximos meses.

O ruído de comunicação desgastou a reputação do BC, ainda que, para muitos analistas, de forma exagerada pelo mercado. A conjuntura deixou a autoridade monetária em uma situação difícil: subir rapidamente os juros para depois cortá-los não faria sentido, mas cortar sem clareza suficiente também tem um custo. Ao que tudo indica, o Banco Central errou mais na forma do que necessariamente no mérito.

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José Inácio Pilar

Âncora do telejornal diário "Meio Dia em Brasília", também roteiriza e apresenta o programa de entretenimento "Café Antagonista" todos os sábados às 10h e às 16h, além de assinar colunas de automobilismo e de entretenimento.

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