A quase três quilômetros de profundidade em uma mina canadense, cientistas encontraram água isolada há cerca de 2 bilhões de anos, muito antes do surgimento de animais e plantas
Entre as descobertas mais surpreendentes em minas profundas está a identificação de água extremamente antiga circulando em rochas a quilômetros de profundidade
Entre as descobertas mais surpreendentes em minas profundas está a identificação de água extremamente antiga circulando em rochas a quilômetros de profundidade.
Esses fluidos ficaram isolados por tempos geológicos, preservando um retrato químico de um planeta muito diferente do atual e ajudando a entender a história da Terra e os limites da vida.
O que é a água mais antiga do mundo?
A água mais antiga do mundo refere-se a fluidos confinados em rochas por bilhões de anos, sem troca significativa com rios, oceanos ou chuvas. O conceito central é o “tempo de residência”, isto é, quanto tempo a água permanece isolada em um sistema geológico profundo.
Em Kidd Creek, no norte de Ontário, Canadá, pesquisadores alcançaram quase três quilômetros de profundidade e encontraram água isolada da superfície por cerca de dois bilhões de anos. Quando esse reservatório foi selado, a Terra era habitada apenas por microrganismos, sem plantas, animais ou ecossistemas complexos à superfície.

Como essa água é encontrada no interior da crosta?
Essa água não fica parada em poros minúsculos, mas circula em fraturas e fendas da crosta, acessíveis apenas por minas profundas. Túneis e perfurações de minas de cobre, zinco e prata funcionam como janelas para o interior da Terra, permitindo observar o fluxo desses fluidos.
Em certos pontos, a água emerge continuamente, às vezes em vazões de litros por minuto, indicando fraturas ainda ativas em um sistema selado em relação à superfície. A elevada salinidade, muito maior que a da água do mar, revela longas interações entre água e rocha em alta profundidade.
Como os cientistas determinam a idade dessa água?
Para datar águas tão antigas, o radiocarbono não é útil, pois só alcança dezenas de milhares de anos. Em vez disso, os cientistas analisam gases nobres dissolvidos, como hélio, argônio, neônio, criptônio e xenônio, produzidos pelo decaimento radioativo nas rochas.
As concentrações e proporções desses gases permitem modelar o intervalo mínimo de isolamento do fluido. Assim, estimou-se para Kidd Creek idades da ordem de 1,5 a 2 bilhões de anos, entre as mais antigas já registradas para águas subterrâneas profundas.
I saw this mine from the air. I am reasonably sure it is the Kidd Creek Mine near Timmins ON. The Kidd Creek Mine extracts Cu-Zn-Ag ore from a volcanogenic massive sulphide deposit in the 2.7 billion year old Abitibi Greenstone Belt. #mining #CanadianMining #VMS pic.twitter.com/yK0tzDu6bI
— Kenny Wallace (@KennyDWallace) April 15, 2024
O que essa água revela sobre vida e energia química?
Além de antiga, essa água é quimicamente ativa, rica em sal, hidrogênio dissolvido, sulfato e outros compostos energéticos. Esses componentes sustentam microrganismos que vivem sem luz solar, como bactérias redutoras de sulfato, formando uma biosfera profunda.
As principais características desse sistema podem ser resumidas em três pontos centrais:
Reações abióticas e radiólise da água pela quebra por urânio/tório geram fluxo contínuo de H₂ e sulfatos na rocha.
Arqueias e bactérias usam o hidrogênio como doador de elétrons e o sulfato como aceptor, gerando ATP sem fótons.
Manutenção de ecossistemas em fraturas profundas de crátons por milhões de anos, imunes a extinções na superfície.
Gabarito experimental para a busca de vida microbiana ativa no subsolo de Marte ou nos oceanos internos de Encélado e Europa.
Como essa água ajuda a entender outros mundos?
Ambientes como Kidd Creek são usados como análogos para possíveis habitats subterrâneos em Marte e em luas geladas como Europa e Encélado. Se micróbios sobrevivem por bilhões de anos apenas com energia de reações água-rocha, cenários semelhantes tornam-se plausíveis fora da Terra.
Pesquisas buscam reservatórios equivalentes em rochas antigas na África e na Austrália, mapeando química, salinidade e microbiologia.
Esses estudos orientam missões espaciais, indicando onde procurar água isolada, quais moléculas rastrear e que bioassinaturas podem revelar vida em ambientes extremos do Sistema Solar.
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