Maristela Basso na Crusoé: Por que o Brasil passou a confiar tão pouco no eleitor?
Cidadãos livres devem ser capazes de conviver com o erro, a divergência, a manipulação, a propaganda e até mesmo com a mentira política
O Brasil criou uma das instituições eleitorais mais sofisticadas do mundo.
A Justiça Eleitoral brasileira é frequentemente apresentada como um caso de sucesso. E, em muitos aspectos, é.
Organizou eleições em um país continental, reduziu fraudes históricas, modernizou procedimentos e contribuiu para a estabilidade institucional de uma democracia jovem e marcada por profundas desigualdades.
Mas toda instituição bem-sucedida enfrenta um risco silencioso: o da expansão de sua própria missão.
Criada em 1932 para combater fraudes eleitorais, a Justiça Eleitoral nasceu para proteger o voto.
Com o passar das décadas, contudo, suas atribuições cresceram.
O órgão concebido para garantir a integridade das eleições passou também a fiscalizar campanhas, controlar propaganda, supervisionar pesquisas eleitorais, regular o ambiente informacional e, mais recentemente, assumir papel central na proteção da própria democracia.
Cada uma dessas ampliações pode ser justificada individualmente.
O problema surge quando observamos o conjunto.
Poucos países democráticos conferem a uma única instituição tamanho poder sobre o processo eleitoral e sobre o debate político que o acompanha.
Nos Estados Unidos, não existe um tribunal eleitoral permanente com funções semelhantes.
No Reino Unido, a administração das eleições e a regulação política são distribuídas entre diferentes órgãos.
Na Alemanha e em outras democracias europeias, prevalece uma forte preocupação em evitar que o Estado se transforme em árbitro contínuo do debate público.
A razão é simples.
As democracias liberais modernas foram construídas sobre uma profunda desconfiança em relação à concentração de poder, inclusive quando exercido com as melhores intenções.
Por trás dessa tradição, existe uma convicção fundamental: cidadãos livres devem ser capazes de conviver com o erro…
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Comentários (1)
Sandra
13.06.2026 18:21Nosso maior problema é nos auto classificar como democracia jovem; não somos nenhuma das duas coisas. Tem muita coisa pra mudar, e principalmente lembrar que nem somos mais jovens pra continuar com os mesmos erros e sempre