O tratamento pioneiro que permitiu o nascimento de uma criança com DNA de três pessoas
O caso envolveu um casal jordaniano com alto risco para a síndrome de Leigh, doença neurológica rara
A história do primeiro bebê nascido por técnica conhecida como “três pais genéticos” ganhou destaque em 2016 e segue como marco na medicina reprodutiva.
O caso envolveu um casal jordaniano com alto risco para a síndrome de Leigh, doença neurológica rara ligada ao DNA mitocondrial materno, que já havia causado a morte de duas filhas e sucessivos abortos espontâneos.
O que é a técnica do chamado bebê de três pais?
A solução apresentada ao casal foi a terapia de substituição mitocondrial, usando o método de transferência do fuso materno. Os médicos retiram o núcleo do óvulo da mãe e o inserem em um óvulo de doadora saudável, previamente esvaziado de seu próprio núcleo, mas com mitocôndrias normais.
Esse óvulo reconstruído passa a conter o DNA nuclear da mãe e o DNA mitocondrial da doadora. Em seguida, é fertilizado com o espermatozoide do pai por fertilização in vitro, formando embriões que, se viáveis, podem ser transferidos para o útero da mãe.

Como o DNA mitocondrial influencia o risco de doença?
Na síndrome de Leigh desse caso, a mutação estava no DNA mitocondrial da mãe, responsável pela produção de energia celular. Embora clinicamente saudável, ela carregava uma proporção elevada de mitocôndrias com mutação, o que gerava grande chance de filhos afetados.
Os métodos tradicionais de reprodução assistida não conseguiam eliminar esse risco de forma segura. A substituição mitocondrial reduz drasticamente a carga de mitocôndrias alteradas, mantendo a herança genética nuclear dos pais biológicos.
Por que o termo bebê de três pais genéticos gera confusão?
O filho nascido por essa técnica é geneticamente descendente direto do pai e da mãe, que fornecem cerca de 20 mil genes nucleares. A doadora contribui apenas com algumas dezenas de genes do DNA mitocondrial, ligados principalmente ao metabolismo energético.
Esses genes não definem traços como cor dos olhos ou estatura. Por isso, muitos especialistas consideram o papel da doadora uma correção técnica para evitar doença grave, e não o de uma terceira progenitora em igualdade genética.
Quais são a segurança e as escolhas feitas nesse caso?
O menino nascido em abril de 2016 apresentou desenvolvimento inicial normal, com exames mostrando porcentagem muito baixa da mutação associada à síndrome de Leigh. Esse nível ficou abaixo do limiar em que a doença costuma se manifestar clinicamente.
A equipe optou por transferir um embrião masculino, já que o DNA mitocondrial é herdado apenas pela linha materna. Assim, eventuais mitocôndrias remanescentes da mãe não seriam transmitidas a futuras gerações pelo filho homem.
Quais são os principais desafios éticos e opções para as famílias?
A substituição mitocondrial abre nova possibilidade para famílias com risco elevado de doenças mitocondriais, mas levanta debates éticos e regulatórios. As normas variam entre países, indo de proibições totais a permissões restritas sob forte supervisão.
Para quem convive com essas doenças, a técnica soma-se a outras escolhas possíveis, que exigem avaliação cuidadosa:
Adoção ou abdicação reprodutiva biológica, zerando estatisticamente a probabilidade de replicação do genoma mitocondrial mutado.
Utilização de oócitos de terceiros saudáveis, substituindo integralmente a linhagem citoplasmática e o mtDNA materno.
Transferência de fuso materno ou pronuclear para um oócito receptor enucleado, gerando um zigoto com DNA de três origens.
Auditoria genômica pré-implantacional e pós-natal (PGT-M), monitorando a taxa de heteroplasmia e integridade do hardware fetal.
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