Maristela Basso na Crusoé: O que nos faz calar?
Toda época autoritária começa quando os covardes passam a parecer prudentes
Há épocas em que a censura vem do Estado.
Há outras em que ela nasce dentro das próprias pessoas.
Talvez o traço mais inquietante do nosso tempo não seja o excesso de mentira, mas a escassez de coragem.
Todos falam. Todos opinam. Todos reagem.
Mas poucos parecem verdadeiramente dispostos a sustentar publicamente aquilo que pensam quando isso implica risco, desconforto ou solidão.
Vivemos cercados de ruído e, paradoxalmente, mergulhados em silêncio.
Imaginemos, então, uma cena improvável: três homens observam o século 21 sentados diante de uma mesa. Immanuel Kant, Michel Foucault e Sigmund Freud contemplam um mundo hiperconectado, saturado de informação, indignação e medo.
Kant talvez fosse o primeiro a falar.
Diria que continuamos presos àquilo que chamou de “menoridade”: a incapacidade de fazer uso da própria razão sem a tutela de terceiros.
Mas a tutela contemporânea já não se apresenta sob a forma clássica da autoridade rígida. Ela surge diluída no desejo permanente de pertencimento.
Muitos já não pensam para compreender o mundo, mas para evitar o isolamento dentro dele.
A opinião substitui a reflexão.
A tribo substitui a consciência.
Talvez Kant olhasse para as redes sociais com perplexidade: nunca houve tanta liberdade formal para falar — e nunca tantos pareceram tão dependentes da aprovação coletiva para existir publicamente.
Mas então Foucault provavelmente interromperia Kant.
O silêncio contemporâneo, diria ele, não nasce apenas da preguiça intelectual. Nasce também do medo.
Há estruturas invisíveis de poder que disciplinam…
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