518 metros de anel e 1,07 bilhão de km/h: a cidade paulista que abriga o único acelerador de partículas de 4ª geração do hemisfério sul
Onde a física brasileira bate recorde mundial
A 99 km de São Paulo, no interior paulista, Campinas concentra mais ciência por quilômetro quadrado do que qualquer outra cidade fora das capitais brasileiras. A 14ª maior cidade do país abriga o Sirius, o acelerador de partículas mais avançado do hemisfério sul, e tem em seu subsolo o instituto de pesquisa agrícola mais antigo do Brasil, fundado pelo próprio Imperador Dom Pedro II em 1887.
O acelerador de partículas que faz Campinas pesar na ciência mundial
Em 14 de novembro de 2018, o Brasil inaugurou no distrito de Barão Geraldo a maior infraestrutura científica já construída em território nacional. O Sirius é uma fonte de luz síncrotron de quarta geração, único acelerador desse tipo no hemisfério sul, segundo o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).
Os números explicam o porte do equipamento. O anel principal tem 518,4 metros de circunferência, abriga mais de mil ímãs e acelera feixes de elétrons a 1,07 bilhão de quilômetros por hora, velocidade próxima à da luz. Cada elétron recebe uma energia equivalente a um choque de 3 bilhões de volts. O prédio que abriga o conjunto tem 68 mil metros quadrados e consome energia elétrica equivalente à de uma cidade de 80 mil casas. O orçamento total chegou a R$ 1,5 bilhão.

Quem quer mergulhar no mundo da ciência de ponta, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Manual do Mundo, que conta com mais de 1,5 milhão de visualizações, onde Iberê Thenório mostra a infraestrutura secreta do Sirius, um acelerador de partículas localizado em Campinas:
O instituto que Dom Pedro II fundou para salvar o café brasileiro
Em 27 de junho de 1887, o Imperador Dom Pedro II assinou a criação da Estação Agronômica de Campinas, hoje conhecida como Instituto Agronômico de Campinas (IAC). O órgão é o mais antigo centro de pesquisa agrícola em funcionamento no Brasil e fica na Avenida Barão de Itapura, no centro da cidade.
O primeiro diretor foi o cientista austríaco Franz Wilhem Dafert, contratado para implantar técnicas de adubação. Em quase 140 anos de pesquisa, o IAC desenvolveu praticamente todo o café cultivado no Brasil, contabilizando 67 variedades do grão. A instituição também colocou São Paulo como a segunda região do mundo a produzir milho híbrido em escala, depois apenas dos Estados Unidos.

A Rainha Elizabeth II que veio ver o café campineiro
Em 7 de novembro de 1968, a Fazenda Santa Elisa, área experimental do IAC em Campinas, recebeu uma visita improvável. A Rainha Elizabeth II e o Príncipe Philip passaram pelo instituto durante uma viagem oficial de 11 dias ao Brasil. O príncipe tinha interesse específico no programa de melhoramento genético do café, reconhecido como referência mundial, segundo a Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo.
O encontro entre a monarquia britânica e a cafeicultura campineira não foi o único de “sangue azul” do instituto. A fundação pelo último imperador do Brasil em 1887 já marcava o nascimento da instituição. Hoje, o IAC mantém 161 pesquisadores científicos distribuídos em 12 centros de pesquisa pelo estado.
Os quatro laboratórios nacionais que cabem em um único campus
O Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), concentra em um único endereço uma estrutura sem paralelo no Brasil. No mesmo campus, em Barão Geraldo, funcionam quatro laboratórios nacionais simultâneos.
Os centros e suas áreas de atuação são:
- Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS): responsável pelo Sirius, atua em física, química, ciência dos materiais e nanotecnologia.
- Laboratório Nacional de Biociências (LNBio): pesquisa em desenvolvimento de medicamentos, doenças negligenciadas e proteção contra vírus.
- Laboratório Nacional de Nanotecnologia (LNNano): investigação em materiais avançados, microscopia eletrônica e dispositivos em escala atômica.
- Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR): estudos com enzimas de biomassa de cana-de-açúcar e produção de bioenergia sustentável.
O CNPEM também mantém a Ilum Escola de Ciência, curso de bacharelado em Ciência e Tecnologia em parceria com o Ministério da Educação. O complexo também desenvolve o Projeto Orion, laboratório para pesquisas avançadas em patógenos.
Onze entidades de pesquisa em uma só cidade
A força científica de Campinas vai muito além do Sirius e do IAC. A Fundação Fórum Campinas reúne 11 entidades de ensino e pesquisa instaladas no município, número que coloca a cidade ao lado da capital paulista como uma das duas regiões brasileiras com destaque mundial em ciência e tecnologia, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Conheça as instituições que compõem essa lista:
- Universidade Estadual de Campinas (Unicamp);
- Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM);
- Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD, fundado em 1976);
- Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI, fundado em 1982);
- Embrapa Informática Agropecuária (1985);
- Embrapa Monitoramento por Satélite (1989);
- Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL);
- Instituto Biológico (IB);
- Instituto de Zootecnia (IZ);
- Instituto Agronômico de Campinas (IAC);
- PUC-Campinas.
Juntas, essas empresas e instituições respondem por boa parte do PIB de Campinas e região, que lidera o ranking nacional de PIB per capita entre as grandes concentrações urbanas, com R$ 111.550,70 por habitante.
A cidade que reúne ciência de fronteira e história imperial
Campinas combina o que poucas cidades no mundo conseguem juntar em 794 km²: o único acelerador de partículas de quarta geração do hemisfério sul, o instituto de pesquisa agrícola mais antigo do Brasil e uma rede de 11 centros que move a fronteira científica nacional. É o interior paulista funcionando como capital científica do país.
Você precisa conhecer Campinas e atravessar a cidade que abriga o ímã que enxerga átomos e a fazenda que viu uma rainha se interessar pelo café brasileiro.
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