Pacientes protestam contra desmonte de Caps pelo governo do DF
Governo quer retirar Centro de Atenção Psicossocial do Plano Piloto, e pessoas em situação de rua podem ficar sem assistência
Pacientes e funcionários do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas (Caps AD III) Candango, no Setor Comercial Sul de Brasília, realizaram um protesto em frente ao local, na quinta-feira, 14, contra um processo em andamento no governo do Distrito Federal (GDF) para encerramento das atividades da unidade.
Funcionários relatam, sob sigilo, que, há cerca de dois meses, começaram a circular boatos de que o Caps seria removido do Setor Comercial Sul. Posteriormente, houve uma reunião com integrantes do governo do DF, na qual foi discutida e confirmada a retirada futura do Caps do local, contrariando até mesmo ressalvas técnicas apontadas no próprio debate.
A proposta do Executivo distrital seria transferir os serviços atualmente prestados na unidade para o Setor de Armazenagem e Abastecimento Norte (SAAN), que fica fora do Plano Piloto de Brasília. Haveria dentro do GDF uma visão de que as atividades do Caps contribuem para uma “degradação“ do Setor Comercial Sul.
A mudança para o SAAN, porém, é criticada por funcionários e pacientes do Caps, que entendem que isso não representa uma solução funcional, mas sim um processo de desmonte da política de saúde mental, pois afasta o serviço da população que mais precisa dele.
O Caps quer permanecer no território do Plano Piloto, garantindo a continuidade do cuidado onde a população já possui vínculo, acesso e referência de atendimento. Segundo os profissionais, a permanência no território é fundamental para preservar a lógica da atenção psicossocial e evitar o rompimento dos laços construídos ao longo dos anos com os pacientes.
Para eles, a retirada do Caps do território não reduz a população em situação de rua nem resolve a questão social existente. Pelo contrário, a ausência do serviço pode aumentar práticas de internação por coerção ou compulsórias, enfraquecendo a lógica de cuidado em liberdade e da atenção psicossocial.
Eles apontam que levar o Caps para o SAAN significa dificultar o acesso e que, onde não há acesso, não há serviço. Além disso, a transferência serviria como justificativa para remoção de especialistas e servidores de seus locais de atuação, enfraquecendo ainda mais a rede de cuidado.
O ato contra o desmonte do Caps e para defender sua permanência no Plano Piloto, na quinta, contou com cartazes, discursos e atividades culturais, como apresentações musicais e roda de capoeira.
Em diferentes cartazes, era possível ler “O Caps é nosso” e “Contra o desmonte do Caps AD III Candango”. Uma das pacientes relatou que a unidade faz parte de sua história, em “muitas camadas”. “Porque eu já tive muitas psicoses, problemas graves de saúde mental em que eu ficava sempre vagando pela rua e a rua me acolhia. Coisa que a gente sabe que muitas das pessoas que têm transtorno mental as famílias não acolhem muito bem. Então, isso é algo que as pessoas da rua têm em comum”.
Ela prosseguiu: “Mas na rua eu encontrei acolhimento, eu encontrei vida, eu encontrei pulsão de coisas boas. Então, acho muito importante a gente valorizar isso, porque saúde mental e rua tem tudo a ver. Então, que o Caps fique, porque é muito importante fomentar esses serviços na rua, para que as pessoas possam ter esse atendimento“.
O deputado distrital Fábio Felix (Psol) e a pré-candidata a deputada distrital Keka Bagno (Psol) também participaram do protesto, que ocorreu no Mês da Luta Antimanicomial – campanha que promove o cuidado em liberdade e o tratamento humanizado.
O Antagonista pediu um posicionamento ao governo do Distrito Federal sobre o protesto. Em nota enviada na noite desta sexta, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal afirmou que “não há qualquer processo de encerramento das atividades do CAPS AD Candango”. “A unidade permanece em pleno funcionamento, realizando atendimentos regularmente à população”.
A pasta admitiu, porém, que existe um chamamento público para escolha de um novo imóvel em andamento. Disse ainda que o serviço “deve permanecer na região central por questões de territorialidade, continuidade do cuidado e integração com a Rede de Atenção Psicossocial (Raps)”.
Conforme a secretaria, “o contrato vigente do imóvel segue ativo” e “toda eventual mudança será conduzida de forma planejada, sem prejuízo à continuidade da assistência prestada aos pacientes”.
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