Márcio Coimbra na Crusoé: O comércio com amigos
Reorganização das cadeias produtivas está se dando com parceiros que compartilham os mesmos valores
A história econômica das últimas três décadas foi escrita sob o signo de uma ilusão sedutora: a de que o comércio, por si só, seria capaz de domesticar impulsos autocráticos. Acreditou-se que a busca pelo menor custo marginal — o mantra do just-in-time — criaria uma teia de interdependências tão profunda que a coerção política se tornaria obsoleta. O início desta década, contudo, impôs um despertar abrupto. A pandemia e as fraturas geopolíticas revelaram que cadeias de suprimentos otimizadas exclusivamente para o lucro são, na verdade, arquiteturas de vulnerabilidade.
Estamos testemunhando o nascimento de uma nova gramática internacional. O pêndulo da globalização, que por anos oscilou na direção da eficiência, agora se move com força rumo à resiliência. É neste cenário que emerge o friend-shoring: a reorganização do comércio não mais apenas entre quem produz mais barato, mas entre quem compartilha valores que garantem o cumprimento de regras e contratos.
A transição para uma globalização baseada em valores representa uma mudança de paradigma profunda. O ativo mais valioso de uma nação no século 21 não é mais apenas sua carga tributária, mas sua previsibilidade institucional.
O investidor global aprendeu que o baixo custo em regimes autoritários esconde um passivo invisível: o risco de ruptura súbita. O friend-shoring propõe a substituição da dependência de cadeias politicamente voláteis por redes de colaboração entre aliados. É o que se poderia chamar de ”compliance de Estado“…
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