Crianças podem fazer dieta?
A maioria das crianças com sobrepeso tem carência de nutrientes — ao mesmo tempo; o que os especialistas em nutrição recomendam
Impor cardápios fechados e proibições alimentares a crianças com sobrepeso ou seletividade pode agravar, em vez de resolver, os problemas de alimentação na infância. É o que aponta estudo do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (Cenda), do Instituto Pensi, que acompanha crianças com diferentes perfis nutricionais.
Obesidade faminta
Três em cada dez crianças atendidas pelo Cenda apresentam sobrepeso, mesmo tendo um repertório alimentar muito limitado. O dado contraria a percepção comum de que crianças acima do peso necessariamente comem de tudo.
Na prática clínica, muitas ingerem grandes quantidades, mas de pouquíssimos itens — em geral, alimentos ultraprocessados ricos em açúcar, sal e gordura, com exclusão de frutas, legumes e cereais integrais.
Esse padrão resulta no que os especialistas denominam “fome oculta do obeso”: excesso calórico combinado com deficiências de vitaminas e minerais essenciais para o crescimento, a imunidade e o desenvolvimento neurológico.
Para esses casos, restringir ainda mais a alimentação representa um risco adicional. “Não há o menor sentido em restringir ou impor um cardápio fechado a uma criança que já possui uma alimentação restritiva, neofobia ou seletividade”, afirmam os profissionais do Cenda.
Ambiente familiar como fator central do tratamento
A literatura sobre estilos parentais indica que tanto os pais excessivamente permissivos quanto os autoritários tendem a ter filhos com maiores índices de problemas alimentares e obesidade. O mesmo vale para adultos que mantêm dietas constantes ou adotam rotinas sedentárias: eles funcionam como referência negativa para os filhos.
A proposta dos especialistas é substituir a dieta individualizada por uma transformação coletiva, organizada em quatro eixos.
O primeiro é a uniformização da alimentação em casa — sem cardápio separado para a criança.
O segundo é o resgate das refeições à mesa, sem celulares ou televisão, o que favorece a percepção dos sinais de saciedade e reduz o consumo mecânico.
O terceiro é o aumento da atividade física de forma lúdica, com caminhadas, passeios de bicicleta e brincadeiras ao ar livre no lugar de horas diante de telas.
O quarto é a educação pelo exemplo: oferecer alimentos variados sem pressão e incluir a criança no preparo das refeições.
A imposição de restrições rígidas, segundo os especialistas, tende a gerar ansiedade, conflitos à mesa e recusa alimentar mais intensa — além de elevar o risco de transtornos alimentares a longo prazo. “A mudança deve ser um processo afetuoso, constante e prático”, indicam os profissionais do instituto.
O Brasil atravessa o que especialistas em saúde pública chamam de transição nutricional: se antes a desnutrição era o principal problema infantil, o país enfrenta agora o crescimento acelerado da obesidade entre crianças e adolescentes.
O cenário é atribuído à combinação de sedentarismo, tempo excessivo diante de telas e consumo elevado de alimentos ultraprocessados — fatores que compõem o chamado “ambiente obesogênico” em que grande parte das crianças brasileiras está inserida.
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