Num dia 30 de abril, “Hitler já sabia que era o fim”
Ditador nazista e Eva Braun se suicidam em 1945; regime durou 12 anos e custou mais de 40 milhões de mortos na Europa
Na tarde de 30 de abril de 1945, Adolf Hitler e sua recém-casada Eva Braun decidiram acabar com a vida dentro do Führerbunker, complexo subterrâneo situado sob a Chancelaria do Reich, em Berlim. Os dois ingeriram cápsulas de cianeto; Hitler também disparou um tiro contra a própria cabeça. Membros da SS retiraram os corpos e os incineraram com gasolina em uma vala no pátio externo.
Ao som da frase que circulou pelos corredores — “Der Chef ist tot”, o chefe está morto —, tinha fim o regime que havia custado a vida de mais de 40 milhões de pessoas na Europa, entre elas 6 milhões de judeus assassinados pelo Holocausto.
O cerco e a percepção do fim
Desde janeiro de 1945, Berlim deixou de ser apenas alvo de bombardeios aéreos aliados para estar ao alcance direto da artilharia soviética. Em 16 de janeiro, Hitler se instalou no Führerbunker acompanhado de assessores e de Eva Braun.
O historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor emérito de Teoria da Guerra da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e titular de História Contemporânea da UFRJ, aponta que naquele momento o desfecho já era evidente ao ditador.
“Quando começa 1945 há uma novidade assustadora dos nazistas que é a proximidade das frentes do exército vermelho”, afirma Silva. “Hitler já sabia que era o fim”.
A propaganda nazista ventilou a possibilidade de Hitler abandonar Berlim e se refugiar nos Alpes. A ideia, porém, foi combatida pelo ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, e pelo chefe da chancelaria do Partido, Martin Bormann, que convenceram o ditador a permanecer na capital.
Segundo Silva, eles apresentaram a Hitler “uma coisa meio catastrófica, mas grandiosa e teatral: o fim em Berlim”.
A morte de Mussolini como ponto de virada
Em 28 de abril de 1945, o ditador italiano Benito Mussolini foi capturado e fuzilado ao tentar cruzar a fronteira com a Suíça disfarçado de soldado alemão. Seu corpo foi exposto de cabeça para baixo em um posto de gasolina em Milão.
Para Silva, esse episódio foi determinante na decisão de Hitler. “Acho que o momento em que Hitler perde todas as esperanças de possa fazer algo para mudar o final da guerra é exatamente a morte de Mussolini da forma que foi”, diz o historiador.
“As fotos da forma humilhante em que Mussolini aparece pendurado de cabeça para baixo num posto de gasolina apavoraram Hitler. Ele não queria ter um fim como aquele, tão pouco grandioso e teatral”, acrescenta.
A partir daquele dia, segundo o professor, “essa ideia do suicídio vai ser absolutamente dominante” no bunker.
Casamento, testamento e despedidas
Na madrugada de 29 de abril, Hitler casou-se com Eva Braun em cerimônia civil conduzida dentro do bunker, com Goebbels e Bormann como testemunhas. Em seguida, ditou à secretária Traudl Junge dois documentos: um testamento pessoal, com a distribuição de seus bens, e um político.
No testamento político, nomeou o almirante Karl Dönitz como presidente da Alemanha e Goebbels como chanceler, além de destituir Hermann Göring de todos os cargos. Manteve o discurso antissemita até o fim, atribuindo a guerra aos “judeus internacionais”.
Na manhã de 30 de abril, as tropas soviéticas estavam a menos de 500 metros da Chancelaria. Antes de se recolher aos aposentos, Hitler despediu-se de alguns seguidores. Ao piloto pessoal Hans Baur, confidenciou: “Meus generais me traíram e venderam, meus soldados não querem mais lutar e eu já não consigo mais”.
Por volta das 15h, Hitler e Eva Braun escolheram a covardia. Ele tinha 56 anos. A Segunda Guerra Mundial na Europa terminaria oficialmente uma semana depois, em 8 de maio de 1945.
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