A realidade que inspirou ‘O Mecanismo’ – Parte 2
O que é realidade e ficção nos episódios 5 a 8 da 2ª temporada de 'O Mecanismo'.
A segunda temporada da série O Mecanismo estreou nesta sexta (10) na Netflix. Confira neste texto a realidade e a ficção dos principais elementos dos episódios 5 a 8.
S2:E5 – Ponte da Amizade

Na série: O doleiro Roberto Ibrahim deixa a prisão e volta às origens de sua carreira, com o contrabando de cigarros no Paraguai.
Na vida real: Alberto Youssef foi solto apenas em novembro de 2016, depois do impeachment, que ocorre no final da temporada. Ele ainda está com tornozeleira eletrônica.

Na série: O bandido Pablo conta a Ibrahim que um “cara” se apresentou como brasileiro, piloto de avião, e que contrabandeava cigarros há 20 anos. Ibrahim reconhece que o “cara” descreveu, na verdade, ele próprio (Ibrahim).
Na vida real: Segundo o livro Lava Jato, de Vladimir Netto, Youssef deu seus primeiros passos no mundo do crime no aeroporto de Londrina, nos anos 80. “Logo aprenderia a pilotar aviões para entrar e sair do Paraguai com mais facilidade” .

Na série: O ex-policial Ruffo arma uma operação clandestina para capturar Ibrahim no Paraguai. Há troca de tiros.
Na vida real: Obviamente, a Lava Jato não teve nada parecido. Mas o episódio não está longe da realidade de outras operações. Em março deste ano, agentes da Polícia do Paraguai mataram em Canindeyú, perto da fronteira com o Brasil, Reinaldo Araújo, integrante do PCC que havia fugido de uma prisão de Assunção em 2018. Em abril de 2017, três suspeitos de um mega-assalto em Ciudad del Este foram mortos durante tiroteio com a Polícia Federal.
Em dezembro de 2018, o doleiro Bruno Farina foi preso no Paraguai com ajuda da Interpol. Ele é investigado pela Lava Jato no Rio.
S2:E6 – Réquiem

Na série: Wilma Kitano e Roberto Ibrahim vivem um ardente romance na prisão.
Na vida real: Nelma Kodama e Alberto Youssef de fato ficaram 19 meses presos na mesma carceragem. Eles foram amantes por nove anos, mas, ao que consta, não na cadeia. Kodama contou que, quando conseguiu ir para o regime de prisão domiciliar, em junho de 2016, fazia dois meses que os dois não conversavam. Segundo ela, brigou com Youssef porque ele tinha ciúmes das visitas que ela recebia. Ela partiu para cima dele, mas Marcelo Odebrecht a segurou.

Na série: O ministro Maximiliano Carrascosa, do STF; o vice-presidente Samuel Thames, o senador Lúcio Lemes e o presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Henrique Penha, articulam o impeachment por pedaladas fiscais. O povo nas ruas e os panelaços estão completamente ausentes.
Na vida real: As elites políticas, inclusive o senador Aécio Neves, relutaram em defender a bandeira do impeachment. Muito ainda se falava em deixar o governo Dilma sangrar, esperando as eleições de 2018. No dia da grande manifestação de março de 2016, Aécio ainda defendia “três caminhos”, inclusive a possibilidade de Dilma renunciar. Ele e Alckmin foram hostilizados por manifestantes na Avenida Paulista e chamados de “oportunistas” .

Na série: Roberto Ibrahim depõe sobre as obras da Miller & Bretch no exterior. Uma série de empresas foi usada para embaralhar o caminho do dinheiro. A PGR tem interesse especial em saber da participação do presidente da Câmara, Carlos Henrique Penha.
Na vida real: Eduardo Cunha foi preso preventivamente em outubro de 2016, bem antes, por exemplo, de Lula. Em março de 2017, foi condenado pela primeira vez, a 15 anos de prisão, por receber propina em contrato da Petrobras para a exploração de petróleo no Benin.
A quebra de sigilo de empresas de Youssef mostrou que contas em seis bancos com sede no Brasil foram utilizadas para movimentar US$ 232 milhões. Esses valores, desviados da Petrobras, foram lavados por meio de contratos de câmbio fraudulentos. Os recursos passaram por 109 contas de empresas de fachada.

Na série: O deputado Carlos Penha vai pessoalmente a um banheiro do Aeroporto de Brasília pegar a mala de propina deixada por Ibrahim.
Na vida real: Youssef confirmou em depoimento prestado ao STF que Eduardo Cunha foi o destinatário de propina de valores desviados de contratos da Petrobras. Porém, Youssef contou que entregava os valores para Fernando Baiano, no Rio, e não diretamente para Cunha. Na época, inclusive, os advogados de Cunha comemoraram o fato de que Youssef não disse ter entregue dinheiro diretamente ao deputado.

Na série: A presidente Janete se recusa a negociar com o deputado Carlos Penha para evitar o impeachment.
Na vida real: Nada mais longe da realidade. Em outubro de 2015, por exemplo, o STF atendeu a pedido do PT de que, se o presidente da Câmara arquivasse um pedido de impeachment, o plenário não poderia recorrer. A decisão deu mais poder a Eduardo Cunha. Em seu mandato, Cunha rejeitou 41 pedidos de impeachment contra Dilma. Ele também acusou a então presidente de ter lhe oferecido “ajuda” de cinco ministros do Supremo.
S2:E7 – O fim e os meios

Na série: Em depoimento no aeroporto de Congonhas, em 4 de março de 2016, o ex-presidente João Higino abusa do sarcasmo com os procuradores. Manifestantes pró e contra Higino fazem uma tremenda confusão no local.
Na vida real: O texto de Higino se parece muito com o que Lula disse naquele dia. Por exemplo: “Eu acho que eu estou participando do caso mais complicado da história jurídica do Brasil, porque tenho um apartamento que não é meu, eu não paguei, estou querendo receber o dinheiro que eu paguei, um procurador disse que é meu, a revista Veja diz que é meu, a Folha diz que é meu, a Polícia Federal inventa a história do triplex que foi uma sacanagem homérica…” .
Manifestantes pró e contra Lula também se encontraram em Congonhas naquele dia. Foram vários tumultos.

Na série: Por sugestão do deputado Carlos Penha, o vice-presidente Samuel Thames manda instalar uma série de vasos de plantas para dificultar a identificação dos visitantes ao Palácio do Jaburu durante o processo de impeachment.
Na vida real: O ‘corredor verde’ de fato foi instalado, mas apenas em meados de 2017, quando Temer já era presidente.

Na série: Janete Ruscov teve 54 milhões de votos em 2014, contra 51 milhões do senador Lúcio Lemes.
Na vida real: Dilma teve 54 milhões de votos, contra 51 milhões do senador Aécio Neves.

Na série: O protagonista Marco Ruffo conta aos policiais Verena e Vander que o PMDB, embora não tenha eleito presidentes, esteve na base de todos os governos.
Na vida real: Qualquer brasileiro sabe disso.
S2:E8 – Canastra Suja

Na série: A revista Leia traz a capa “Gino x Rigo” .
Na vida real: A revista Veja estampou a capa “Moro x Lula” apenas em maio de 2017, bem depois do depoimento em Congonhas e do impeachment.

Na série: Ricardo Bretch grita com o pai no parlatório da prisão.
Na vida real: Nelma Kodama contou que Marcelo Odebrecht gritava com os advogados no parlatório.

Na série: Ricardo Bretch decide colaborar com a investigação quando está claro que a presidente Janete será impichada. Ele diz: “Eu não conheço nenhum político no Brasil que se elegeu sem caixa dois” .
Na vida real: Marcelo Odebrecht fechou acordo de delação premiada no fim de 2016, depois do impeachment. Um de seus depoimentos é quase idêntico ao texto da série: “Eu não conheço nenhum político no Brasil que tenha conseguido fazer qualquer eleição sem caixa dois” .

Na série: Um deputado não-identificado, vivido pelo ator Garcia Júnior, parabeniza o presidente Carlos Penha. Acrescenta: “perderam em 1964 e perderam agora” , e dedica seu voto à memória “do coronel que apavora a presidente Janete” e vota sim “pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos” .
Na vida real: O discurso é quase idêntico ao de Jair Bolsonaro naquele dia: “parabéns, presidente Eduardo Cunha. Perderam em 64, perderam agora em 2016 (…) Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff (…) Por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é sim” .
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Confira AQUI, na parte 1 desta série, os fatos que inspiraram os episódios 1 a 4.
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