Crusoé: A vida em segredo de uma cristã no Irã
Bahar Rad cresceu vendo seu pai preso por professar o cristianismo. Do exílio, hoje apoia os fiéis que vivem na clandestinidade
Bahar Rad é uma das milhares de cristãs que fugiram do Irã por causa de sua fé.
Seu pai ficou preso por 13 dias por professar o cristianismo, mas acabou sendo libertado pelo regime dos aiatolás.
O medo passou a fazer parte da rotina: dentro de casa, nas relações sociais e até na forma de expressar a própria identidade religiosa.
O Irã figura na 10ª posição na Lista Mundial da Perseguição feita pela ONG Portas Abertas.
Crusoé conversou com a mulher que, mesmo no exílio, hoje se dedica a apoiar cristãos iranianos que são obrigados a rezar escondidos.
Bahar conta o que significa crescer sob perseugição e acompanhar à distância a resistência silenciosa de uma igreja que segue existindo em meio à guerra.
Como foi crescer vendo seu pai preso por causa da fé dele?
Quando eu era adolescente, foi muito difícil. Nós não sabíamos o que estava acontecendo com meu pai, quando ele voltaria para casa, ou mesmo se voltaria. Meus irmãos mais novos choravam o tempo todo e perguntavam por ele, e minha mãe e eu tínhamos que mentir, dizendo que ele estava viajando.
Na escola e com amigos, eu precisava esconder a verdade e fingir que tudo estava normal, até fingindo ser muçulmana. Não havia nenhum lugar seguro onde eu pudesse compartilhar meus medos, minhas dúvidas ou até mesmo minhas lágrimas. Também ficamos completamente desconectados de outros cristãos e da igreja doméstica durante esse período.
Nossa família extensa colocava muita pressão sobre nós. Incentivavam minha mãe a se divorciar do meu pai e me alertavam que, se eu seguisse o mesmo caminho que ele, também acabaria presa um dia.
Como sua família lidou com o medo e a perseguição?
Houve um tempo em que lutei com muitas perguntas. Eu me perguntava: se meu pai estava seguindo a verdade, por que ele estava na prisão? Por que estávamos passando por tanta dor?
No meio dessa confusão, experimentei a presença de Deus de forma muito pessoal. Era como um Pai amoroso acalmando meu coração e me lembrando que tudo estava sob controle, mesmo quando eu não conseguia entender. Eu escolhi confiar nele, e Ele me deu força, perseverança e paz no meio da incerteza.
Para minha mãe, a pressão era ainda maior. Ela trabalhava como professora enquanto cuidava de três filhos sozinha. Recebia telefonemas ameaçadores dizendo para ficar em silêncio ou poderia perder o emprego e enfrentar o mesmo destino do marido.
Qual foi o maior desafio ao fugir do Irã e viver como refugiada?
O primeiro desafio foi deixar tudo para trás — nossa casa, nossos bens e a vida que conhecíamos — colocando o que podíamos em algumas malas para ir a um lugar desconhecido.
Depois veio a saudade profunda. E, com o tempo, o maior desafio passou a ser viver na incerteza. Não havia…
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