Gilmar se apresenta para o jogo
Percepção do ministro como ator nos rumos da criação de uma liga de futebol no Brasil é mais um sintoma da crise em que o STF se meteu
A reportagem de capa desta semana de Crusoé (aberta para não assinantes) chamou a atenção para o fato de que o processo do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) que obrigou os dois projetos de liga de futebol no Brasil a lhe submeterem cada adesão de membros foi relatado por um ex-chefe de gabinete do ministro Gilmar Mendes (foto) no Supremo Tribunal Federal (STF).
O voto de Victor Oliveira Fernandes foi endossado por todos os colegas do Cade, e o julgamento se trataria apenas de mais uma aparente tentativa da autarquia de participar de tudo o que for possível, como tem feito o Tribunal de Contas da União (TCU), não fossem detalhes que tornam o caso bem mais nebuloso.
O decano do STF não apenas compareceu à sessão de julgamento naquele 11 de fevereiro, como fez um emocionado discurso de homenagem a Oliveira durante 12 minutos, destacando toda a proximidade com o antigo assessor, a quem agradeceu pela época de militância contra a Lava Jato.
Presença de Gilmar
A presença de Gilmar pode ter sido coincidência, e é possível que Oliveira mereça mesmo todas as homenagens do ministro do STF, mas quem tenta criar uma liga única no Brasil se sentiu intimidado.
Está disseminada no meio futebolístico brasileiro desde a eleição de Samir Xaud para comandar a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em 2025, que quem manda mesmo na instituição é Francisco Schertel Mendes, o filho de Gilmar que preside o IDP, instituto criado pelo ministro.
O IDP, no qual Gilmar permanece como sócio e principal propagandista, por meio, principalmente, do Fórum Jurídico de Lisboa, o famigerado Gilmarpalooza, mantém um contrato com a CBF desde agosto de 2023 para oferecer cursos pela CBF Academy.
IDP
Esse contrato só chamou atenção para além do mundo do futebol quando Gilmar despachou uma liminar para manter no cargo de presidente da CBF Ednaldo Rodrigues, em janeiro de 2024.
O ministro negou as alegações de conflito de interesses na época, dizendo que o IDP “estava organizando e cedendo seu bom prestígio à CBF, e não o contrário“.
Questionado por O Antagonista sobre as notícias que dão conta de que seu filho estaria pressionando dirigentes de clubes da Futebol Forte União (FFU), o projeto de liga que parece estar ganhando da adversária Libra a disputa para se impor como modelo, o decano respondeu por meio de sua assessoria que não comentaria o assunto.
Mas o fato é que o que deveria ser uma disputa futebolística, no máximo entre os dirigentes de clubes e de federações estaduais, acabou tendo reverberações em Brasília.
CPMI do INSS
Na semana que passou, Gilmar despachou para dispensar Leila Pereira, presidente do Palmeiras, de comparecer à CPMI do INSS — a cartola comanda também a empresa de crédito Crefisa.
Leila é enxergada pelos dirigentes de outros clubes como fiel demais à CBF — apoiava Ednaldo, apoiou a eleição de Xaud, ao contrário da maioria dos presidentes de clube, e faz questão de que a CBF participe como protagonista da criação de uma liga, o que não ocorre nas ligas europeias.
E essa história fica ainda pior: o mesmo pedido para dispensar Leila de comparecer ao Congresso Nacional para se explicar havia sido negado, antes, pelo ministro Flávio Dino.
Não há nada de errado em Francisco Mendes buscar protagonismo na CBF. Especula-se até que seu plano é virar presidente da instituição — ele já se elegeu vice da federação do Mato Grosso. E pode ser que tudo o que ocorre em Brasília hoje com reverberação na formação da liga esteja correto.
O problema
Mas todas as suspeitas que circundam o assunto e o receio dos dirigentes de clubes nem sequer existiriam caso o decano do STF não mantivesse, ao mesmo tempo em que decide os rumos da República, a sociedade em um instituto de ensino tão influente.
O mesmo se aplica a Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e, agora, Kassio Nunes Marques, todos envolvidos em algum grau com o escândalo do Banco Master.
O STF atingiu seu nível de desconfiança histórico nesta semana, segundo pesquisa AtlasIntel. Seus ministros não podem seguir fingindo que os problemas do tribunal estão todos do lado de fora.
Leia mais: STF venceu o bolsonarismo, mas não convenceu
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Comentários (2)
Marian
22.03.2026 15:56Este tipo de atuação, estará prevista no código de ética da côrte?
Denise Pereira da Silva
22.03.2026 13:45Criação urgente de uma instituição que vise fiscalizar ministros do STF. O Senado brasileiro hoje é composto por senadores bananas, fracos e covardes.