O asteroide de 10 km que matou os dinossauros há 66 milhões de anos criou as piscinas de água turquesa mais cristalinas do planeta
Piscinas de água turquesa dentro da cratera que extinguiu os dinossauros
Um asteroide de 10 km de diâmetro atingiu o sul do México há 66 milhões de anos. O impacto extinguiu os dinossauros, abriu uma cratera de 200 km e, com o passar dos milênios, criou milhares de piscinas subterrâneas de água cristalina.
Os maias chamavam essas formações de ts’ono’ot, que significa “coisa profunda”. Hoje o mundo as conhece como cenotes.
O que um asteroide tem a ver com piscinas naturais?
Tudo. A cratera de Chicxulub, soterrada sob a Península de Yucatán, tem cerca de 200 km de diâmetro e está coberta por mais de mil metros de calcário. O impacto fraturou a rocha da região de forma desigual. Ao longo de milhões de anos, a água da chuva infiltrou pelas fissuras, dissolveu o solo calcário poroso e esculpiu uma rede de cavernas e rios subterrâneos. Quando o teto dessas cavernas desabou, surgiram os cenotes, expondo reservatórios de água doce à superfície.
A prova mais visível dessa conexão é o chamado Anel de Cenotes: um semicírculo de dolinas com cerca de 180 km de diâmetro que acompanha a borda da cratera soterrada. Essa formação está inscrita na Lista Indicativa da UNESCO desde 2012, reconhecida como feição geológica única no planeta. Pesquisadores da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) identificaram que o fluxo de águas subterrâneas de toda a península é canalizado por fraturas associadas à cratera, o que explica a concentração de cenotes ao longo dessa faixa.

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Portais sagrados para o inframundo maia
Para os maias, os cenotes não eram apenas fontes de água potável. Eram entradas para o Xibalbá, o inframundo descrito no Popol Vuh, livro sagrado da tradição maia quiché. Segundo a narrativa, o Xibalbá era um reino subterrâneo dividido em nove níveis, governado por deuses da morte. As almas dos falecidos precisavam atravessar rios de sangue e enfrentar provas antes de alcançar o destino final.
Essa crença transformou os cenotes em centros cerimoniais. Arqueólogos já recuperaram do fundo do Cenote Sagrado de Chichén Itzá joias de jade, cerâmica cerimonial e restos humanos de sacrifícios rituais. As cidades maias eram construídas deliberadamente perto de cenotes. Em Mayapán, a grande pirâmide foi erguida diretamente sobre o cenote Ch’en Mul, com nove níveis que simbolizavam os patamares do inframundo. Até hoje, comunidades descendentes dos maias realizam rituais pedindo permissão aos espíritos da água antes de usar esses espaços.

Por que a água dos cenotes é tão transparente?
A resposta está no solo. A água da chuva se infiltra lentamente pelo calcário poroso da península, que funciona como um filtro natural de partículas. Quando chega aos reservatórios subterrâneos, o líquido já está quase livre de sedimentos em suspensão. Em alguns cenotes, a visibilidade subaquática ultrapassa 100 metros. A temperatura se mantém estável entre 24 °C e 25 °C durante o ano inteiro, segundo registros de centros de mergulho locais.
Há outro fenômeno que fascina mergulhadores: a haloclina. Em cenotes mais profundos, a água doce da chuva flutua sobre uma camada de água salgada que penetra pela costa. A fronteira entre as duas densidades cria um efeito visual de distorção, como se houvesse um rio dentro da própria caverna. O sistema de cavernas inundadas Sac Actun, na península, supera 347 km de extensão mapeada, sendo considerado o maior rio subterrâneo do mundo.
Quantos cenotes existem e quais valem a descida?
As estimativas variam. Uma reportagem da National Geographic publicada em 2025 menciona pelo menos 8 mil cenotes registrados na Península de Yucatán, embora o número real possa superar 10 mil. Muitos permanecem escondidos sob a selva ou em propriedades privadas. Os tipos variam conforme a idade e o grau de erosão:
- Cenotes a céu aberto: os mais antigos, sem teto. Parecem lagoas circulares com paredes rochosas. Exemplo: Cenote Oxmán, perto de Valladolid, com raízes de árvores descendo até a água.
- Cenotes semiacobertos: parte do teto desabou, criando aberturas por onde feixes de luz solar entram e iluminam a água turquesa. Exemplo: Ik Kil, a 3 km de Chichén Itzá.
- Cenotes em gruta: os mais jovens, com teto quase intacto. A escuridão e as estalactites criam uma atmosfera de catedral subterrânea. Exemplo: Cenote Xkekén, em Dzitnup.
- Cenotes de caverna: totalmente subterrâneos, acessíveis apenas por aberturas estreitas. Preferidos de mergulhadores técnicos. Exemplo: Dos Ojos, perto de Tulum.
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Raízes, luz e silêncio: o cenário que atrai milhões
O que torna os cenotes únicos não é só a clareza da água. É a combinação de elementos que não existe em nenhuma piscina natural do planeta. Raízes de árvores tropicais descem dezenas de metros pelas paredes de rocha até tocar a superfície da água. Feixes de luz atravessam aberturas no teto e criam colunas luminosas que mudam de posição ao longo do dia. Estalactites formadas quando as cavernas ainda eram secas, há mais de 12 mil anos, decoram os tetos como esculturas naturais.
Para preservar esse ecossistema frágil, os cenotes abertos ao público exigem que visitantes entrem na água sem protetor solar, repelente ou cremes. Muitos oferecem chuveiro obrigatório antes do mergulho. A entrada custa entre 30 e 200 pesos mexicanos (de 2 a 12 dólares), variando conforme a estrutura do local.

Onde os dinossauros desapareceram, a água criou vida
Os cenotes de Yucatán são a prova de que destruição geológica e beleza natural podem ocupar o mesmo endereço. O asteroide que encerrou uma era inteira da vida na Terra também fraturou a rocha que, milhões de anos depois, filtrou a chuva e revelou piscinas de água azul no meio da selva.
Você precisa descer a escadaria de pedra de um cenote, sentir a temperatura da água mudar sob os pés e olhar para cima, onde as raízes das árvores tentam alcançar o que os maias chamavam de portal para outro mundo.
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