A história de duas irmãs, de 72 e 73 anos, que vivem sozinhas em uma floresta sustentável com plantas medicinais no Brasil
A sustentabilidade descrita nesse relato vai além da ausência de agrotóxicos
Na Serra Catarinense, entre morros cobertos de neblina e cheiros de terra molhada, duas irmãs, de 72 e 73 anos, acordam cedo todos os dias para cuidar de uma horta orgânica de mais de um hectare, tratar das vacas, colher os ovos e preparar o que vão levar à feira da semana. Elas vivem sozinhas, sem vizinhos próximos, e afirmam não tomar remédios comprados em farmácia. Para muita gente, essa história soa improvável. Para elas, é simplesmente a vida que sempre conheceram, e que escolheram não abandonar.
Como duas irmãs idosas sustentam a própria vida em meio ao mato?
As imagens que percorreram a internet foram gravadas em Tencílio Costa, uma localidade da Serra Catarinense, onde a horta circunda a casa e a natureza define o ritmo de tudo. As duas irmãs estruturam sua sobrevivência em quatro pilares principais: a horta orgânica, o leite das vacas, a feira semanal e as plantas medicinais. Não há um desses elementos que funcione de forma isolada, eles se sustentam mutuamente numa lógica circular que faz sentido há décadas.
A horta funciona como uma reserva viva, com colheita contínua e variedade que muda conforme a estação. Entre os produtos levados regularmente à feira estão couve, beterraba, feijão-vagem, figos e milho doce, além de queijo e bolos de coalhada feitos com o leite das próprias vacas. O que não é vendido retorna para a cozinha ou vira insumo para outra receita. Nada se desperdiça, e essa economia circular é parte do que torna o modelo sustentável, mesmo com a força de trabalho de apenas duas mulheres na terceira idade.

O que as plantas medicinais representam na rotina delas?
Um dos aspectos mais marcantes desse relato é a relação das irmãs com a saúde. Elas afirmam que fabricam seus próprios remédios e não fazem uso de medicamentos convencionais pagos em farmácia. A rotina inclui um suco verde diário pela manhã, preparado com ingredientes da própria horta e do quintal, entre eles bagas de sabugueiro combinadas com outros elementos. Para elas, as plantas medicinais não são um complemento ao tratamento, elas são o tratamento em si.
Esse tipo de relação com a fitoterapia não é novidade no interior do Brasil, especialmente entre pessoas que cresceram em ambientes rurais onde o acesso a médicos e farmácias era distante e o conhecimento sobre ervas curava desde gripes até problemas mais complexos. O que chama atenção nessa história é a consciência com que as irmãs descrevem essa escolha: não como ausência de alternativa, mas como convicção de que a terra fornece tanto o alimento quanto o cuidado. Veja o que sustenta essa autonomia na prática:
- Horta orgânica de mais de um hectare: produção contínua e diversificada que abastece a mesa e gera renda na feira semanal, sem uso de agrotóxicos ou defensivos químicos.
- Leite e derivados: quatro vacas leiteiras garantem produção regular, com excedente transformado em queijo e bolos de coalhada para comercialização.
- Plantas medicinais: utilizadas como método principal de cuidado com a saúde, incluindo o preparo artesanal de remédios e o consumo diário de suco verde.
- Feira semanal: compromisso fixo que organiza o calendário produtivo e garante renda regular, forçando a horta a produzir em ciclos curtos e constantes.
Como é a gestão da terra que elas praticam há décadas?
A sustentabilidade descrita nesse relato vai além da ausência de agrotóxicos. As irmãs adotam o compostagem dos resíduos orgânicos, evitam queimar qualquer material na propriedade e buscam consumir pelo menos 80% de alimentos naturais produzidos pela própria terra. A capina é feita manualmente, com ferramenta afiada para controlar o mato sem veneno, num trabalho descrito como contínuo e exigente fisicamente. Não existe folga da terra porque a terra também não tira folga delas.
A diversidade da produção vai além das hortaliças. O relato menciona batata-doce, abóbora e marcela, além de galinhas poedeiras, porcos e bezerros que fazem parte do cotidiano da fazenda. Essa variedade não é apenas estética, ela é estratégica: reduz a dependência de um único produto, distribui o risco de perda entre diferentes cultivos e garante que sempre haverá algo disponível, seja para o consumo da casa, seja para a feira da semana.
Confira o vídeo das duas irmãs vivendo sozinhas na serra catarinense:
Quem são essas mulheres e o que as trouxe de volta para a terra?
Uma das irmãs foi professora durante 28 anos, atuando frequentemente no interior, inclusive com experiência em hortas escolares para complementar a merenda dos alunos. Ela conta que nasceu ali, saiu para trabalhar nas cidades vizinhas e voltou para viver com a irmã, que nunca havia saído. Esse retorno não foi uma derrota nem uma fuga do mundo moderno. Foi uma escolha consciente por uma forma de vida que ela conhecia e que, segundo ela mesma, oferece uma autonomia que o trabalho assalariado nunca ofereceu.
A irmã que ficou toda a vida na propriedade carrega no corpo e no conhecimento décadas de convívio com a terra, com as plantas, com os animais e com os ciclos naturais que determinam o que cresce, quando colher e o que guardar. Esse tipo de saber, construído por gerações e raramente registrado em livros, é o verdadeiro patrimônio dessa história. E é exatamente esse saber que as mantém funcionais, autônomas e produtivas muito além do que qualquer expectativa etária poderia sugerir.
O que essa história revela sobre envelhecimento, pertencimento e medo do abandono?
Por mais admirável que seja a autonomia dessas duas irmãs, o relato não esconde uma vulnerabilidade real. Uma delas diz ter medo da solidão e pede que o trabalho delas seja valorizado, que não as deixem isoladas. Essa frase carrega um peso que vai além do individual: ela aponta para um problema estrutural do interior brasileiro, onde agricultores idosos que produzem alimento de qualidade, cuidam da terra sem veneno e mantêm um modo de vida que o mundo urbano admira à distância, frequentemente envelhecem sem rede de apoio suficiente.
Há também preocupações com o entorno: plantações de soja nas redondezas e o medo de que os agrotóxicos contaminem a horta e comprometam a saúde das duas. É uma tensão concreta entre dois modelos de agricultura que coexistem no mesmo território. A história dessas irmãs não é um convite à romantização do isolamento. É um relato honesto sobre o que significa depender da própria força, do próprio conhecimento e da própria terra para existir com dignidade. E é também um lembrete de que valorizar essa existência, ao comprar na feira, ao visitar, ao enxergar, é a forma mais concreta de impedir que ela desapareça.
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