Família é como gosto e bumbum: cada um tem a sua
A revolta nas redes sociais e por políticos populistas é, além de hipócrita e oportunista, inócua. Ninguém deixará de formar família à sua maneira
O subdesenvolvimento brasileiro não dá as caras apenas na falta de água e de esgoto tratados a mais de 40% dos lares, nem nos piores índices educacionais e de violência (urbana, doméstica, etc.). Ou nas estradas assassinas, hospitais insalubres e masmorras – falsamente chamadas de presídios – onde corpos vivos são empilhados como carniça. Nossa miséria social e intelectual aparece, também, nas sucessivas discussões populares sobre temas absolutamente irrelevantes para o cotidiano de qualquer um.
A treta da moda é família. Uma escola de samba inexpressiva – em termos históricos no Rio de Janeiro – resolveu fazer campanha eleitoral para Lula e, ato contínuo, apresentar uma visão de mundo típica da esquerda-raiz. A despeito da impropriedade da ocasião e até mesmo de possíveis ilegalidades eleitorais, um enredo de carnaval é a expressão do que os dirigentes da escola e seus participantes pensam, e se algo ainda é livre em Banânia – ainda que vigiado com lupa quando interessa – é o pensamento e a expressão.
Uma das críticas do partido, digo escola de samba, é a instrumentalização da família como peça de propaganda ideológica, sobretudo religiosa. Os carnavalescos de Niterói resolveram “enlatar” a família, a fim de mostrar como certos grupos a enxergam apenas como o modelo “pai, mãe, filhos”, desprezando e atacando outras formas de agrupamento afetivo como casais do mesmo gênero. Mais que depressa, políticos profissionais entraram em campo e sequestraram, outra vez, um tema banal, declarando guerra ao divergente.
Cada um no seu quadrado
Flávio Bolsonaro, por exemplo, afirmou que família “É a maior criação de Deus”. Sim, o bolsokid e integrante de uma família completamente disfuncional, em que irmãos se tratam como inimigos e filhos agridem os pais de forma selvagem – aliás, o patriarca Jair gosta tanto de família que já está na terceira – atribui exclusivamente ao Senhor uma forma de vida em grupo anterior a qualquer forma organizada de religião. Pergunto: ateus e agnósticos formam famílias? E índios que têm raios e trovões como divindades?
O Homo sapiens se aglutina em família desde os primórdios. Praticantes de todas as religiões e crenças, idem. Povos isolados, que nem crença têm, igualmente. Até diversas espécies animais vivem em família. Querer atribuir a um deus, de uma religião qualquer, a instituição familiar não é menos “ofensivo” que enlatar simbolicamente um modelo “perfeito” na visão de alguns – ainda que muitos, mas não de todos. Duas mulheres ou dois homens casados, com ou sem filhos, formam uma família? Sim ou não?
A revolta nas redes sociais e por políticos populistas é, além de hipócrita e oportunista, inócua. Ninguém deixará de formar sua família ou de professar sua fé, no templo que quiser, por causa dessa discussão imbecil. Igualmente, o Brasil não se tornará menos corrupto, subdesenvolvido ou injusto socialmente a partir disso. Quiçá fôssemos tão vigilantes e aguerridos na hora de tirar do poder os falsos profetas e bezerros de ouro. Mas, ao contrário, os idolatramos e seguimos. A prova é mais essa celeuma histérica.
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Comentários (1)
Seja como for, o momento é ótimo para tornar Lula inelegível . A escola de samba não contou só a história de Lula , mas de seus inimigos politicos. Se o TSE nao fizer nada, vai ser o caos. Ao mesmo tempo acho quo Descondenado está buscando se tornar inelegível e deixar para seu sucessor a tarefa de reerguer o país que ele afundou.