Fungo brasileiro produz substância eficaz contra câncer de mama
Pesquisa da USP mostra que cefalocromina, extraída de fungos que vivem em folhas de árvores, potencializa quimioterápicos
Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP identificaram atividade anticâncer em uma substância isolada de fungos da espécie Alternaria sp. A cefalocromina demonstrou eficácia contra células de câncer de mama triplo-negativo, um dos subtipos mais agressivos da doença. O estudo foi publicado na revista científica Journal of Natural Products.
A substância apresentou uma característica que a diferencia de muitos quimioterápicos convencionais: age sobre a survivina, proteína que existe apenas durante o desenvolvimento embrionário e reaparece em casos de malignidade. Essa especificidade permite atacar células tumorais sem provocar danos expressivos ao tecido saudável.
Ação conjunta reduz doses necessárias
Os experimentos realizados pela equipe testaram a cefalocromina em combinação com paclitaxel e doxorrubicina, dois medicamentos já utilizados em protocolos de quimioterapia. Nos dois casos, o composto extraído do fungo ampliou a ação dos fármacos.
Esse efeito sinérgico abre caminho para a redução das dosagens necessárias. Concentrações menores dos medicamentos podem atingir a mesma eficácia observada com doses elevadas nos tratamentos isolados.
“Usar fármacos em concentrações mais baixas pode gerar menos efeitos adversos, porque potencializa o efeito terapêutico, mas não, necessariamente, a toxicidade”, afirma ao Jornal da USP João Agostinho Machado Neto, professor do Departamento de Farmacologia do ICB e supervisor da pesquisa.
Foco no subtipo de difícil tratamento
O projeto concentrou esforços no câncer de mama triplo-negativo, caracterizado pela ausência de proteínas específicas que servem como alvo de terapias direcionadas. Essa ausência restringe as opções terapêuticas e torna o tratamento mais complexo.
Os tratamentos disponíveis funcionam para a maioria dos casos, mas alguns pacientes não respondem adequadamente aos medicamentos existentes. A busca por alternativas que aumentem a eficácia e reduzam os efeitos colaterais orienta o desenvolvimento de novos fármacos.
“Um tratamento eficaz para um subtipo tão agressivo apresentar resultados promissores pode significar, para o futuro, o uso de doses menores, menos efeitos colaterais e pacientes com uma melhor qualidade de vida”, diz Isabelle Diccini, primeira autora do artigo e responsável pela pesquisa de mestrado que originou o estudo.
Etapas até a aprovação
O desenvolvimento de um medicamento passa por um processo extenso que pode levar dez anos. A pesquisa divulgada representa a etapa inicial desse percurso.
As próximas fases incluem testes de eficácia e toxicidade em modelos animais, seguidos de ensaios clínicos com humanos para avaliar segurança e eficácia. Apenas após a conclusão desses estudos e a aprovação de órgãos reguladores a substância pode se tornar um medicamento disponível para uso clínico.
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