Psicopatas, eleitos por ignorantes e desamparados, ameaçam o planeta
A humanidade já assistiu a esse filme. Ninguém poderá, no futuro, alegar ignorância
Já escrevi e disse, dezenas de vezes, que nunca consegui compreender plenamente como o maldito Adolf Hitler fez tudo o que fez e, sobretudo, como países europeus considerados civilizados, com instituições sólidas, populações educadas e tradição cultural sofisticada permitiram aquela barbárie toda. Como aceitaram o extermínio sistemático de mais de seis milhões de judeus, além de ciganos, homossexuais, pessoas com deficiência e opositores políticos?
A resposta clássica, “ninguém sabia”, ruiu há décadas. Documentos do Tribunal de Nuremberg, relatórios diplomáticos britânicos e americanos e registros da Cruz Vermelha mostram irrefutavelmente que havia conhecimento, método, silêncio, conivência e medo. O nazismo não foi um acidente histórico. Ao contrário. Foi um processo genocida sustentado por forte apoio popular, propaganda estatal eficiente, desinformação em massa e oportunismo político.
Em 2022, durante a campanha presidencial no Brasil, quando amigos queridos, gente muito boa, instruída e aparentemente até então civilizada, passaram a relativizar racismo, homofobia, xenofobia, violência política, tortura e até ditadura – tudo em nome de fanatismo político -, comecei a entender com mais clareza como o nazismo prosperou. E não foi apenas por ignorância absoluta. Houve, também, adesão voluntária, ressentimento em grau máximo e muito preconceito.
Apoio popular a autocratas é regra
Hoje, diante de outro líder poderoso, autocrata, beligerante, de traços nitidamente psicopáticos, mas extremamente carismático e sedutor – refiro-me ao presidente americano Donald Trump -, essa minha compreensão se aprofunda sobremaneira. Seu discurso nacionalista agressivo, suas bravatas autoritárias e sua retórica de inimigos internos (os democratas) e externos (imigrantes e quaisquer países que não lhe digam “amém”) encontram eco em milhões de eleitores americanos. Se a democracia ainda é formal, o vírus autoritário vem a corroendo por dentro.
Não existem pesquisas plenamente confiáveis em regimes fechados, mas o que há de minimamente crível indica, por exemplo, que Vladimir Putin mantém apoio majoritário na Rússia. Pesquisas do Levada Center – um dos poucos institutos independentes ainda ativos naquela autocracia – mostram índices elevados de aprovação desde a invasão da Ucrânia, em 2022. A explicação combina propaganda oficial massiva, repressão brutal e ausência real de alternativa política. Discordar do carrasco pode significar prisão, exílio ou morte. Às vezes, uma queda “acidental” de uma varanda ou um sushi envenenado.
O padrão não é inédito e se repete. A China, sob o comando de Xi Jinping, opera um dos sistemas mais sofisticados de vigilância e controle social da história, com alto grau de aceitação interna. A Hungria, governada com mãos de ferro por Viktor Orbán, desmonta progressivamente o Estado de Direito com amplo respaldo eleitoral. A Turquia, de Recep Tayyip Erdoğan, faz o mesmo. A Polônia, nos últimos anos, flerta perigosamente com o autoritarismo judicial e midiático.
Trump e o delírio imperial
O roteiro, para tanto, é amplamente conhecido. Povos desinformados, frustrados, ressentidos e inseguros; líderes populistas, carismáticos e sem freios morais; opositores enfraquecidos ou cooptados; instituições capturadas pouco a pouco pela corrupção. E, claro, ódio. Muito ódio! Foi assim no fascismo, no nazismo, no maoísmo, no stalinismo e em quase todos os regimes totalitários do século XX. Nada do que ocorre atualmente é novo. O que muda é a tecnologia e as razões fantasiosas: hoje, a propaganda é ainda mais “em massa” e algorítmica, que garante mais eficácia.
O bufão alaranjado Donald Trump governa os Estados Unidos com a lógica de um caudilho moderno. Rompe alianças históricas como a OTAN; sabota acordos multilaterais; ameaça países soberanos com tarifas punitivas, sanções unilaterais e até insinuações militares; trata líderes estrangeiros com desprezo público; reduz a diplomacia a transações de força. E nada disso é apenas retórico. Durante seu primeiro mandato, os EUA abandonaram o Acordo de Paris, atacaram a OMC, tensionaram relações com aliados e normalizaram a linguagem do inimigo interno.
Agora, o tom é ainda mais agressivo. Pior. Mais aceito. E tudo isso acontece sob o olhar atônito e, muitas vezes, impotente não apenas dos democratas americanos, mas de uma parcela expressiva da própria sociedade dos EUA. Sem falar, é claro, sob a complacência de países alinhados ideologicamente ou comprometidos por interesses financeiros, comerciais ou estratégicos. A lição histórica é clara: os psicopatas não governam sozinhos. São sustentados e aplaudidos. A humanidade já assistiu a esse filme. Ninguém poderá, no futuro, alegar ignorância.
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Comentários (5)
Marcel Hirsch
26.01.2026 09:12Parabéns Ricardo. Um raio X perfeito. Mostra com nitidez o papel dos que lideram com loucura e dos liderados por conveniência.
Flavio marega
25.01.2026 21:04HEIL!!! Trumputinping
Marian
25.01.2026 16:12Todo ditador é um sádico doente mental, e se não for impedido, imporá sua loucura e maldade por décadas a fio. Não largam o osso facilmente. Comparar Trump com ditadores e ditaduras sanguinárias é ditar o que a história ainda não escreveu. Acho que as instituições Americanas são fortes, embora parece ter havido tentativa de aparelhamento.
Carlos Roberto Triandafeledis
25.01.2026 15:39Quase todos os líderes autoritários do passado, até que recente em termos históricos, terminaram encontrando um final trágico para sua carreira de desmandos e perversidades. Qual será o destino desses psicopatas de agora ?
Rosa
25.01.2026 12:07Outro cara bom no seu metier!!