No metaverso bolsonarista
Ainda que teime em não se submeter à realidade, a narrativa política precisa respeitar ao menos os limites do ridículo
Há uma realidade paralela na qual Jair Bolsonaro será candidato à Presidência da República em 2026. Nesse universo alternativo, Donald Trump dorme e acorda pensando no futuro do Brasil, que o presidente dos Estados Unidos considera essencial para consolidar a democracia mundial.
Não faltam motivos para a família Bolsonaro e seus apoiadores acreditarem em tudo isso.
O principal é que, mesmo condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente mantém boa parte de seu apoio popular, ainda que com algum abalo.
O segundo motivo é estratégico: sustentar a perspectiva eleitoral pode de fato significar a soltura de Bolsonaro, e até um perdão, como ocorreu tortamente com Lula.
O problema
O problema para os bolsonaristas é que a estratégia pode não apenas dar errado como acabar beneficiando seu principal adversário. É, aliás, o que ocorreu com Lula em 2018.
O petista até foi solto e viu suas condenações serem anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas, antes disso, entregou a eleição a Bolsonaro ao sustentar sua candidatura de dentro da cadeia, adiando a campanha de Fernando Haddad e a associando diretamente a um condenado.
Na tentativa de conseguir uma anistia para Jair, seus filhos Flávio, Eduardo e Carlos acabaram contribuindo para ressuscitar o governo do petista, que pegou carona do tarifaço de Trump para recuperar popularidade com o discurso da “soberania nacional”.
Estados Unidos
Hoje, ficou mais claro o que O Antagonista já destacava desde que Trump anunciou que iria impor a tarifa adicional de 50% aos produtos brasileiros: Bolsonaro foi usado como pretexto pelo presidente americano, entre tantos outros motivos alegados para o tarifaço.
Depois de passar semanas dizendo que Bolsonaro é um “homem bom” — e apenas quando era provocado por jornalistas brasileiros, destaque-se —, agora Trump diz o mesmo sobre Lula, e nunca mais mencionou a “caça às bruxas” que denunciava contra o alegado aliado.
Quando se trata de Trump, tudo pode mudar de uma hora para a outra, e talvez seja nisso que os bolsonaristas apostam ao tentar traduzir os carinhos de Trump com Lula em termos estratégicos.
Hoje, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que até outro dia se vendia como o único canal brasileiro com o governo americano e dizia que “sem anistia, não haverá diálogo”, se limita a torcer contra as conversas entre o chanceler Mauro Vieira e Marco Rubio, secretário do Estado dos EUA.
Consequências
Enquanto os filhos de Bolsonaro esperam mais uma virada de humor de Trump, o PL da Anistia, que já tinha virado PL da Dosimetria, vai sendo esquecido no Congresso Nacional — o plano de perdão ganhou uma forcinha com a retaliação de Lula ao Centrão, mas como mera moeda de troca.
Mais do que isso: a campanha antecipada de Lula pela reeleição vai avançando sozinha, sem adversários declarados, como Ronaldo Caiado (União), com força o bastante para contrapô-la.
Boa parte dos pretendentes ao Palácio do Planalto aguarda o posicionamento de Bolsonaro. Quem ele irá apoiar diante do fato de que está indo para a cadeia — e já estava inelegível até 2030?
Estratégia
Os apoiadores de Bolsonaro se concentram em reclamações contra a conduta do ministro Alexandre de Moraes, em especial nos casos de Filipe Martins e do ex-assessor Eduardo Tagliaferro, e se expõem ao ridículo ao quebrar o pau por picuinhas em programas ao vivo na internet.
É legítimo e faz parte do jogo político criticar Moraes pelos seus equívocos e exageros, mas não parece o bastante para tirar Bolsonaro do buraco que ele mesmo cavou para se meter.
De nada vai adiantar o discurso de injustiça disseminado pelos bolsonaristas se eles não souberem calcular as reais possibilidades de conseguir algum benefício para o ex-presidente.
Os riscos
Alguns ministros do STF já indicaram o caminho possível, de redução da pena por meio de alteração na lei via Congresso Nacional. Pode não ser o bastante do ponto de vista da família Bolsonaro, mas provavelmente é o máximo que eles devem conseguir, na atual situação das coisas.
Outro caminho seria ungir o quanto antes um candidato com chances reais de ganhar a eleição presidencial em 2026, para tentar a sorte com o Senado renovado depois de 2027 — além disso, o próximo presidente deve ter três ministros do STF para indicar.
Os filhos de Bolsonaro sustentam uma intransigência que pode acabar por prejudicar o pai, contudo, como ocorreu no caso do tarifaço, que o levou à prisão domiciliar. Se Lula conseguir se reeleger, o horizonte para qualquer benefício ao ex-presidente ficará pelo menos quatro anos mais distante.
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