Divulgação de relatório sobre lisura das urnas era “inoportuna”, diz Moraes
Relator citou mensagem do pai de Mauro Cid ao réu colaborador, para explicar por que o governo Bolsonaro atrasou a divulgação
Ao votar pela condenação de Jair Bolsonaro e mais sete réus por golpe de Estado, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, afirmou que a divulgação do relatório das Forças Armadas sobre a lisura das urnas era considerada “inoportuna”.
Relator da ação penal em julgamento na Primeira Turma, Moraes citou uma mensagem do pai do tenente-coronel Mauro Cid ao filho para explicar por que o governo Bolsonaro atrasou a divulgação do documento.
“Há até uma mensagem, que foi recuperada pela Polícia Federal, entre o réu colaborador [Mauro César Barbosa Cid] e seu pai, general quatro estrelas também do Exército, ex-comandante do Sudeste, o general Mauro Lorena Cid, em que Mauro Lorena Cid, que à época exercia um cargo na Apex, em Miami, por nomeação de Jair Bolsonaro, diz:
‘Há ruído nas redes sociais sobre a existência de um relatório que concluiria pela não identificação de irregularidades no processo eleitoral do primeiro turno.’
O relatório que já estava pronto.
‘Muitos consideram inoportuna e perigosa a divulgação de tal documento antes do final do pleito.’
Vejam: ‘muitos consideram inoportuna e perigosa a divulgação’ do quê? Do relatório das Forças Armadas que atesta a lisura nas eleições.
Mas muitos, e os muitos da organização criminosa liderada por Jair Messias Bolsonaro, consideram ‘inoportuna e perigosa a divulgação’ de tal documento antes do final do pleito.
‘Por isso há’, continua ele, ‘grande receio de uma manifestação precipitada de endosso do Ministério da Defesa ao processo do primeiro turno.’
Óbvio, se a organização criminosa, desde meados de junho de 2021, insiste na vulnerabilidade das urnas eletrônicas, deslegitimando o Poder Judiciário, a Justiça Eleitoral, para desacreditar as eleições e dizendo, inclusive perante embaixadores e perante milhares de pessoas no 7 de setembro de 2021, que as Forças Armadas é que devem garantir a lisura…
Ora, como divulgar um relatório das Forças Armadas que atesta a total lisura e ausência de vulnerabilidade das urnas eletrônicas?
Lamentavelmente, dando sequência à sua unidade de desígnios já demonstrada na reunião do dia 5 de julho de 2022 quando [o então ministro da Defesa] se diz na linha direta contra o inimigo Tribunal Superior Eleitoral, o réu Paulo Sérgio [Nogueira] atende às ordens do líder da organização criminosa, Jair Bolsonaro, e atrasa essa divulgação.”
O que diz a PGR
Com base no depoimento do brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior, comandante da Aeronáutica em 2022, a Procuradoria-Geral da República concluiu que o governo Bolsonaro adiou a divulgação e manipulou a conclusão de que não houve fraude do relatório da Comissão de Transparência Eleitoral, integrada por militares.
“Em juízo, a testemunha confirmou que o relatório poderia ter sido entregue antes da votação em segundo turno”, afirmou.
“A ordem emitida por JAIR MESSIAS BOLSONARO torna indubitável o seu dolo. O conhecimento da inexistência de fraude eleitoral revela que seu objetivo, ao postergar a divulgação do Relatório, era o de propiciar condições políticas para o atentado em curso contra a ordem constitucional”, acrescentou.
Leia a conclusão da PGR sobre o atraso da divulgação do relatório da Comissão de Transparência Eleitoral entre as páginas 115 e 121.
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