O que Atlético e Flamengo têm a ensinar aos políticos do Brasil
Quando rivais disputam lealmente, perdem e ganham. Mas ambos crescem e florescem. E mais importante que saber vencer, é saber perder
Sou de uma geração sofrida de atleticanos que, primeiro, assistiu a times magníficos, recheados de craques, mas, sem poderio político em um tempo em que as regras e as leis não tinham qualquer valor, e a força literalmente bruta era imposta dos gabinetes para os gramados, foi roubada e humilhada de todas as formas.
Com o passar dos anos, com alguma evolução política, o Brasil e seu futebol mudaram. O poder político ainda impera, claro, assim como certas pilhagens clubistas. Porém, não há como negar, em muito menor grau e efeito. O ambiente do futebol brasileiro evoluiu muito nesse sentido, ainda que a anos-luz distante da perfeição. Contudo, para a costumeira “desgraça” alvinegra, sucessivas gestões temerárias levaram o Galo para o buraco.
A partir de 2020, finalmente, fez-se a luz. Uma turma de abnegados e, sim, imperfeitos mortais, que erram feio e bastante, como todos nós, chegou para tentar nos tirar das trevas dos cartórios e das varas judiciais. Para nos livrar dos 6×1 e dos Aragão e Wright da vida. E melhor. Reeditando o que havia de bom no passado (craques) com algo que sempre nos faltou: títulos – além de uma maravilhosa casa própria. Hoje, sob qualquer ótica, o Galo é maior, melhor e mais forte.
Noite de significados e ressignificados
Assistir ao mesmo jogo que assistia nos anos 1980, mas, ainda que inferior ao rival (plantel, dinheiro, momento), fitando o timaço carioca “olhos nos olhos”, à altura, ou melhor, da mesma altura. Nada de subserviência, nada de inferioridade. Apenas respeito por um clube maior, mais rico e esportivamente em patamar muito mais elevado. Atlético e Flamengo não se separam mais por “quem é quem”. Separam-se por centenas de milhões de reais anuais que, objetivamente, às vezes, não falam mais alto.
Foi noite, também, de ressignificados. Mais de quatro décadas depois, assisti ao jogo ao lado de um ídolo, um monstro sagrado do universo atleticano. Um sujeito que foi o maior e melhor de sua época, mas, surrupiado por juízes e cartolas, espancado – literalmente – por beques cruéis e violentos, não pôde comemorar todos os títulos que mereceu. Para completar o quadro ilustrativo da passagem da vida, a criança que chorou de tristeza em 1980 chorou, como adulto, ao lado da filha, de alegria dessa vez.
Por fim, foi noite de lição. Como nas fábulas, a vitória deixou uma “moral”. E muito apropriada aos dias nebulosos da política brasileira. A rivalidade, quando entendida da forma correta e exercida com caráter, é profícua. Querer vencer um adversário, um opositor, é o que mantém acesa a chama da vida, do desejo, da ambição de crescer e ser melhor. Mas vencer não significa eliminar, aniquilar. Sem o outro – o opositor – não há competição, não há motivação. Há acomodação, mediocridade.
Aprendendo a jogar
Quando rivais disputam, lealmente, perdem e ganham. É do jogo. Mas ambos crescem e florescem. E mais importante que saber vencer, é saber perder. Ontem, Galo e Flamengo mostraram ao país, aos extremistas políticos que não apenas não se aceitam, mas que querem se aniquilar, que vencer e perder é permitido. E que, assim, ambos sobrevivem. Ambos crescem. Maiores, melhores, eternos.
P.S.: Este texto foi excepcionalmente publicado também em O Fator, parceiro de O Antagonista em Minas Gerais
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Comentários (2)
Eliane ☆
07.08.2025 15:16Eu são-paulina, muita tristeza...
Eliane ☆
07.08.2025 15:15Gostaria de saber o que o diretor de jornalismo achou desse texto.Posso dizer que todos os textos, artigos do Ricardo são ótimos.