Prisão de Bolsonaro: a quinta-série vai tomar conta do Brasil
Lá vamos nós, de novo, assistir a mais um recreio interminável enquanto pagamos a merenda para a molecada se divertir
Não são prerrogativas tupiniquim a baixaria e a tibieza do debate – e embate – político. A carência de grandes líderes mundiais não é à toa, mas da péssima formação das “etapas anteriores”. Quando despreparados, em sua maioria, são eleitos, anos depois, uma vez na liderança, despreparados estarão.
Donald Trump só chegou onde chegou e goza do apoio que goza por conta desse cenário caótico. O nível do Congresso americano não apenas reflete o atual presidente como, igual ao paradoxo do ovo e da galinha, não é possível afirmar quem é o criador e quem é a criatura. Contudo, a fagulha original chama-se eleitor.
No Brasil da alucinação coletiva, que me faz ter saudade dos tempos da pós-verdade, a cada novo ciclo eleitoral – leia-se, a cada dois anos – a situação se agrava. De Tiririca em Tiririca, palhaços não profissionais como o deputado federal paulista em quarto mandato, vão apinhando-se como jabuticabas, em setembro, no Congresso.
De tudo um pouco
Dos mais recatados aos mais extravagantes, dos mais comezinhos aos mais exóticos, figuras sem qualificação intelectual – quando não raro, moral também – ocupam não apenas o anteriormente chamado “baixo clero”, mas posições de destaque em comissões e mesas diretoras, e até mesmo cargos de liderança partidária.
Em tempos de redes sociais onipotentes, onipresentes e oniscientes, habilidades políticas, técnicas de negociação, cultura geral, tolerância e etiquetas básicas de civilização e civilidade deram lugar à excelência na comunicação digital de massa – tão rasa quanto um pires de cafezinho. E “dá-lhe, TikTokers”.
A polarização entre extremistas lulopetistas e bolsonaristas, agora bolsotrumpistas, aprisiona o país e a sociedade em uma arapuca até então inquebrantável, impedindo qualquer chance de debate produtivo e producente. Pautas econômicas, sociais, ambientais etc. já não existem, ou resistem, às pancadarias ideológicas.
Hora do recreio sem fim
Pré-Bolsonaro, o binarismo existencial era a corrupção. Ou elegia-se o falso Messias ou mantinha-se a cleptocracia lulopetista – assim definida, à época, por ninguém menos que Gilmar Mendes (sim, juro, ele pensava isso sobre os governos petistas). Pós-Bolsonaro, o dilema migrou para a luta entre supostos democratas e aparentes ditadores.
Em alguns meses, estaremos, outra vez, discutindo não o desenvolvimento, ou melhor, a falta dele, mas se Bolsonaro deveria estar inelegível, se Lula deveria estar concorrendo pela milionésima vez, se Alexandre de Moraes deveria estar preso, se Donald Trump deveria invadir o Brasil. Pior. De uma forma virulenta, violenta e generalizada.
Há alguns dias, a oposição avisou que iria obstruir as votações no Senado, enquanto não se pautasse o pedido de impeachment de Alexandre de Moraes. Agora, são os deputados bolsonaristas que prometem “parar o Brasil”. Adornos, máscaras, fantasias, empurrões, ofensas… Lá vamos nós, de novo, assistir a mais um recreio da quinta-série, enquanto pagamos a merenda para a molecada se divertir.