Exercícios aumentam sobrevida de pacientes com câncer, indica novo estudo
Pesquisas sugerem que a prática regular de exercício físico pode ter um impacto significativo na sobrevida de pacientes com câncer colorretal
Um estudo internacional indica que a prática regular de exercícios físicos pode ter um impacto significativo na sobrevida de pacientes diagnosticados com câncer colorretal, potencialmente reduzindo o risco de morte em mais de um terço.
A pesquisa, cujos resultados foram publicados no periódico acadêmico New England Journal of Medicine, aponta que a atividade física também está associada a uma menor probabilidade de o tumor retornar ou de um novo câncer se formar.
Segundo James Gallagher, correspondente de Saúde e Ciência da BBC News, programas de exercícios direcionados a esses pacientes podem diminuir o risco de óbito em 37%. Os pesquisadores envolvidos no estudo enfatizaram que não se trata de exigir “uma grande quantidade” de exercício, e que diversas modalidades de atividade física, desde natação até dança, podem ser benéficas.
A professora Vicky Coyle, da Queen’s University, em Belfast, na Irlanda do Norte, descreveu essa descoberta como uma “mudança de mentalidade”, encarando o tratamento como algo ativo que o paciente participa, e não apenas algo que ele recebe. O câncer colorretal é o quarto tipo de câncer mais comum no Brasil, afetando cerca de 45,6 mil pessoas anualmente.
Os resultados do estudo e a recomendação de atividades
O programa de exercícios avaliado na pesquisa foi implementado logo após a quimioterapia, com os pacientes sendo monitorados por vários anos. O objetivo era que os participantes alcançassem pelo menos o dobro do volume de exercício recomendado pelas diretrizes gerais de saúde pública.
Estima-se que isso corresponda a aproximadamente três a quatro sessões semanais de caminhada rápida, com duração entre 45 e 60 minutos cada. Os participantes também contaram com suporte, incluindo sessões de treinamento presenciais regulares nos primeiros meses.
O estudo acompanhou 889 pacientes, dividindo-os em dois grupos: um que participou do programa de exercícios e outro que recebeu apenas informativos sobre hábitos saudáveis. Os resultados, analisados em períodos de cinco e oito anos, demonstraram a vantagem clara do grupo que se exercitou. Após cinco anos, 80% dos pacientes que se exercitaram estavam livres da doença, em comparação com 74% no grupo controle, o que representa uma redução de 28% no risco de recidiva ou surgimento de um novo tumor. O benefício na sobrevida foi ainda mais notável: oito anos após o início do tratamento, apenas 10% das pessoas no grupo de exercícios haviam morrido, contra 17% no grupo que recebeu os folhetos. Essa diferença significa um risco de morte 37% menor para aqueles que se engajaram na atividade física.
Entenda o mecanismo e as implicações clínicas
Embora a razão exata pela qual o exercício impacta positivamente o combate ao câncer não seja totalmente compreendida, especialistas levantam hipóteses. Suspeita-se que a atividade física possa influenciar fatores biológicos cruciais, como a produção de hormônios de crescimento (que podem estimular células tumorais), os níveis de inflamação no corpo e a eficácia do sistema imunológico, responsável por identificar e combater células doentes.
Joe Henson, pesquisador da Universidade de Leicester, no Reino Unido, classificou os resultados como “empolgantes”. Ele observou em primeira mão como o exercício “reduziu a fadiga, melhorou o humor e aumentou a força física” dos pacientes, reforçando a ideia de que a atividade física regula processos biológicos importantes que podem explicar esses achados.
A enfermeira Caroline Geraghty, da Cancer Research UK, organização britânica de fomento à pesquisa oncológica, acredita que este estudo “tem o potencial de transformar a prática clínica”. No entanto, ela ressalta que a implementação generalizada dessas descobertas dependerá de os sistemas de saúde contarem com o financiamento e as equipes necessárias para tornar o acesso a programas de exercício uma realidade para todos os pacientes oncológicos.
Cientistas já investigam se benefícios semelhantes poderiam ser observados em pacientes com outros tipos de câncer, como o de mama.
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