Trump e Gaza: seria uma boa ideia se não fosse estúpida, dita de forma estúpida

09.10.2026

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O Antagonista
Trump e Gaza: seria uma boa ideia se não fosse estúpida, dita de forma estúpida
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Ricardo Kertzman
8 minutos de leitura 05.02.2025 17:27 comentários
Análise

Trump e Gaza: seria uma boa ideia se não fosse estúpida, dita de forma estúpida

A ideia (de Trump) seria boa se não fosse estúpida. E só é estúpida porque ele trata as coisas e as pessoas com estupidez

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Ricardo Kertzman
8 minutos de leitura 05.02.2025 17:27 comentários 3
Trump e Gaza: seria uma boa ideia se não fosse estúpida, dita de forma estúpida
Foto: Reprodução/ Redes sociais

Inicio este texto ciente do máximo cuidado que terei de observar a cada palavra, a cada vírgula, a cada frase, a cada parágrafo e a cada ponto final. Adoraria estar em um boteco, entre amigos, discutindo livremente o assunto. Mas não estou. Estou em um dos mais prestigiados e influentes portais do país. E em um mundo em que poucos se interessam pelo debate honesto, e preferem a crítica vazia e a lacração acusatória, não posso, como dizemos em Minas, “dar milho aos pombos”. Vamos lá.

Sou absoluta e radicalmente contra a ideia estúpida – outra, aliás – de Donald Trump transferir os palestinos de Gaza para outros países, e depois recuperar o local e transformá-lo no paraíso do Mediterrâneo. E não por outro motivo que não seja a discordância do uso da força bruta contra um povo ou uma nação. Atenção: Israel jamais guerreou contra o povo palestino ou, vá lá, apenas ilustrativamente, contra Gaza. Israel sempre reagiu (legitimamente) após ser atacado. Israel sempre foi favorável a dois estados e à soberania palestina sobre seu território, desde que, claro, não nas mãos de grupos terroristas.

Judeus atravessaram séculos de perseguição, violência e morte até terem seu próprio estado, não sem antes, para não variar, serem atacados por povos que não apenas não aceitavam a existência de Israel, mas a própria existência dos judeus. O Hamas, por exemplo, em seu estatuto, prega abertamente o extermínio dos judeus. Um dos mantras antissemitas atuais é “from the river to the sea, Palestine will be free” (do rio ao mar, a Palestina será livre), ou seja, do Jordão ao Mediterrâneo, nada de judeus. Quem já não ouviu, por aí, “Pena que Hitler não terminou o trabalho”? 

Contexto judaico

É inaceitável que um judeu deseje a um povo igual destino; e pouco importam os motivos. Até porque, os nazistas também tinham os seus, como os fundamentalistas islâmicos os têm. Agora, não compreender que um israelense – judeu ou não – seja simpático à ideia do presidente americano, é pura falta de coragem de admitir o egoismo humano e reconhecer o próprio instinto de sobrevivência. Pais que perdem os filhos no exército – ou são sequestrados e mortos por terroristas – querem mais é que Trump transforme Gaza em Cancún e espalhe seus hotéis por lá.

Sim. Não é diferente do sentimento de milhares, talvez milhões de palestinos que perderam tudo e que querem ver Israel varrido do mapa. O fato é que todos nós, humanos, trocamos conceitos básicos de civilidade pelo próprio bem-estar. Reconhecer tal característica é fundamental para evitar erros trágicos. Se judeus “ligarem o foda-se” (perdão pela expressão) para os palestinos, estarão fazendo mais ou menos o que fez o grosso da sociedade alemã diante do holocausto.

É justamente por isso que ideias estúpidas jamais devem ser expostas; muito menos executadas à força. Quando Trump, como líder da maior potência econômica e militar do planeta, e supostamente o representante da mais bem-sucedida experiência democrática da Terra liberta seus instintos e resvala em limpeza étnica – pois é disso que, ao fim e ao cabo, se trata -, estará não apenas endossando quaisquer formas futuras de genocídio, mas inspirando outros líderes e milhões e milhões de pessoas ao redor do mundo.

Sonho ou pesadelo

Eu sei. A tentação é grande. Inclusive em nome do bem-estar geral. Uma espécie de Plano Marshall para Gaza sempre esteve no radar de todos: Israel, Estados Unidos, União Europeia e árabes. O potencial turístico daquela orla é gigantesco. Fosse um país “normal”, livre do jihadismo e do terror, seria, senão riquíssimo e desenvolvido, ao menos habitável – como o Brasil, por exemplo, e não estou sendo irônico, não. 

Transformar Gaza em Riviera Francesa seria, sim, maravilhoso. Para os palestinos e para Israel. Ao longo de décadas vindouras de progresso econômico, intercâmbio cultural e “amor pela vida” (quem não tem nada – propriedades, bens, direitos, família etc. – não tem apego pela vida e acaba sendo recrutado pelo terror), a coexistência e a paz seriam duradouras. É um jogo de ganha-ganha. Só que, necessariamente, precisaria ser proposto, negociado, acordado e executado multilateralmente. Jamais imposto à força e de forma unilateral.

“Ah, Ricardo, mas assim não sairá nada. Com terroristas e fundamentalistas não há diálogo”. Bem, o mundo não é perfeito e a vida não é fácil. Quem dera não haver tiranos e criminosos no planeta. Mas não se pode, em nome disso, agir de modo semelhante, ou seja, fora das regras e das leis civilizatórias. Inclusive contra incivilizados. Grosseiramente falando, não posso expulsar de sua casa o vizinho porco e barulhento, porque se recusa a respeitar as normas do condomínio. Acho que não é difícil entender isso.

Duplo padrão moral

Estamos falando de quase dois milhões de palestinos. Cerca de 70 – 80% são pessoas “comuns”, que não querem guerra nem terrorismo, mas apenas sobreviver – diferente de viver – em paz. Sabem aqueles idiotas que falam que “O exército deveria invadir as favelas (do Rio) e acabar com aquilo tudo“? Pois é. Como culpar e punir 99% dos moradores, pais e mães de família, trabalhadores e estudantes por causa de 1% de criminosos organizados, muitas vezes, aliás, sócios de autoridades e agentes públicos?

Resumindo: a ideia (de Trump) seria boa se não fosse estúpida. E só é estúpida porque ele trata as coisas e as pessoas com estupidez. Sentasse à mesa, propusesse de forma calma e equilibrada, desse espaço para argumentos e contra-argumentos, e não apenas agisse na base da ofensa e da ameaça, talvez ficasse mais clara, fizesse mais sentido e lograsse êxito. Mas da forma posta (veja abaixo), apenas causa repulsa e reação contraproducente, principalmente por parte dos antissemitas – explícitos ou disfarçados.

Por fim, não deixa de ser curiosa, ainda que esperada, a reação de gente que apoia o tal mantra que citei – from the river to the sea… -, vir falar em limpeza étnica. Essa gente não se importa, e até apoia, o extermínio de judeus e agora vem criticar o bufão americano pelo mesmo motivo? Quem não os conhece que os compre. Eu não! Eu não apenas os conheço como os combato. Eles estão se lixando para o sofrimento do povo palestino. Apenas detestam os Estados Unidos – Trump, então, nem se fala – e Israel.

Leia o que disse Trump

“Eu acredito que a Faixa de Gaza tem sido um símbolo de morte e destruição por muitas décadas… O que tem sido tão ruim para o povo que vive lá e por perto, especialmente para os que vivem lá. E, francamente, eles têm sido muito azarados. Aquele tem sido um lugar sem sorte por muito tempo. Estar na presença disso não tem sido bom.

Eles não deveriam passar por um processo de reconstrução e ocupação pelas mesmas pessoas que estiveram lá e lutaram e viveram lá e morreram lá e viveram uma existência miserável lá. Em vez disso, eles deveriam ir para outros países de interesse, com corações humanitários. E há muitos deles que querem fazer isso.

Então vamos reconstruir várias estruturas que serão ocupadas pelos 1,8 milhão de palestinos que vivem em Gaza. Acabando com a morte, a destruição e, francamente, com a má sorte. Isso poderá ser custeado pelos países vizinhos que são muito ricos. Pode ser 1, 2, 3, 4, 5, 7, 8, 12 alojamentos. Podem ser vários lugares ou um lugar muito grande, mas as pessoas poderão viver em conforto e paz.”

E concluiu o presidente americano

“Os EUA assumirão a Faixa de Gaza e faremos um trabalho lá também. Seremos responsáveis pelo desmonte de todas as armas perigosas, bombas não detonadas e outras armas no local. Nivelar o terreno, eliminar os edifícios destruídos, criar um desenvolvimento econômico que forneça números ilimitados de empregos e moradias para a população local.

Temos uma oportunidade de fazer algo que pode ser fenomenal. E eu não quero ser fofo, não quero bancar uma de esperto, mas a Riviera do Oriente Médio, isso pode ser algo que pode ser tão — isso pode ser tão magnífico.

Será maravilhoso para o povo. Palestinos, palestinos principalmente, estamos falando sobre isso. E tenho a sensação de que, apesar de eles dizerem não, tenho a sensação de que o rei na Jordânia e que o presidente geral Sisi… o general no Egito… abrirão seus corações e nos darão o tipo de terra que precisamos para fazer isso, e as pessoas podem viver em harmonia e em paz.”

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Ricardo Kertzman

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Comentários (3)

Sandra

05.02.2025 18:34

Luiz Eduardo concordo com tudo que disse, mas o que o Trump quer é ser dono de outro país, se deixarem ele faz tudo o que falou lá e não deixa os palestinos voltarem nunca mais.


José Mancusi

05.02.2025 18:24

Muito bem escrito! Parabéns!!! Trump fala muito errado, porém falta ao mundo líderes que tenham iniciativa e empenho em resolver problemas antigos, que custam milhares de vidas e são adiados por múltiplos interesses.


Luis Eduardo Rezende Caracik

05.02.2025 18:17

Não poderia apreciar mais este artigo, Ketzman. E acrescento que se Trump acha uma boa solução retirar todos os palestinos de lá, então que separe uma porção de terra desocupada num dos estados menos habitados dos Estados Unidos (sugiro Nevada, Arizona ou Novo México) construa a infraestrutura necessária para os dois milhões de Palestinos lá se instalarem com decência, conforto e segurança, incluindo escolas e hospitais, dê a cada um deles um visto de permanência de pelo menos 10 anos, peça doações a Israel, à comunidade Judaica dos Estados Unidos, aos milionários árabes e ao Elon Musk - pode acrescentar aí o Mark Zuckerberg também(afinal os contribuintes americanos não vão aceitar estes gastos)para reconstruir Gaza ou a Riviera de Gaza, leve os 2 milhões de palestinos para os Estados Unidos enquanto a Riviera de Gaza é construída, e quando terminar, leve todos de volta para lá, cada um com um pé de meia formado para reiniciar suas vidas. How about that?


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