Solidão já é problema de saúde entre idosos, segundo pesquisa
Pesquisa de Harvard mostra que até contatos casuais protegem saúde na velhice, e que cultivar relações sociais pode melhorar a saúde
Pesquisas científicas atestam o que estudiosos recomendam: bons relacionamentos constituem o maior preditor de felicidade e saúde na velhice. O “Harvard Study of Adult Development”, que acompanha participantes desde 1938, revelou que a satisfação nas relações aos 50 anos pode determinar o estado de saúde aos 80.
Um estudo de 2014 intitulado “Social Interactions and Well-Being: The Surprising Power of Weak Ties”, conduzido por Gillian M. Sandstrom e Elizabeth W. Dunn, demonstrou que até interações casuais com conhecidos geram impactos mensuráveis no bem-estar.
Egídio Dorea, médico e coordenador do programa USP 60+ da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária, define a solidão como um “sentimento de vazio ou desconexão”. Distingue-a do isolamento social, que se refere à ausência objetiva de contato.
A solidão, segundo a Organização Mundial da Saúde, constitui problema de saúde pública, aumentando riscos de depressão, ansiedade, hipertensão e Alzheimer.
Transformações urbanas aprofundam isolamento
Entre 2005 e 2015, o número de pessoas vivendo sozinhas cresceu 39%, conforme dados do IBGE. Dorea atribui o fenômeno a mudanças estruturais nas cidades e dinâmicas familiares: “A urbanização quebrou laços comunitários tradicionais. Hoje, vivemos em apartamentos, muitas vezes sem conhecer os vizinhos. A globalização e a mobilidade também nos afastam de amigos e familiares”, afirma o médico.
Idosos enfrentam obstáculos específicos: morte de parceiros e amigos, além de mobilidade reduzida. Jovens, por sua vez, lidam com pressões sociais e ilusão de conexão mediada por curtidas e comentários.
O paradoxo da tecnologia digital
As redes sociais intensificam contradições da conectividade contemporânea. Plataformas que prometem aproximação frequentemente aprofundam distanciamento nas interações. Dorea observa que a tecnologia “conecta, mas também isola”, afetando distintas faixas etárias, embora impacto mais grave recaia na população acima de 60 anos.
Interações informais têm importância
A pesquisa de Sandstrom e Dunn foi específica: estudantes que trocaram palavras ou sorrisos com colegas ou conhecidos relataram maior felicidade e conexão nesses dias, apesar da brevidade dos contatos. Dorea reforça a importância das chamadas “weak links” – conversas com baristas, vizinhos ou desconhecidos.
Pessoas com maior frequência de contatos informais relatam bem-estar elevado, contradizendo a noção de que apenas relacionamentos profundos importam para reduzir isolamento social. Encontros cotidianos, ainda que simples, modificam a percepção de pertencimento e diminuem vulnerabilidade à solidão.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)