Um em cada cinco universitários pensa em suicídio, aponta estudo
Pesquisa com quase 4 mil pessoas da comunidade acadêmica brasileira identifica solidão e traumas na infância como fatores de risco
Quase1/5 dos membros da comunidade acadêmica brasileira relatou ter tido pensamentos sobre morte ou autolesão. É o que indica uma pesquisa conduzida por universidades públicas do Rio de Janeiro e publicada no periódico científico The Lancet Regional Health – Americas.
O estudo, com 3.828 participantes, mapeou fatores psicossociais associados à ideação suicida e concluiu que a depressão, embora importante, explica apenas parte do fenômeno.
Depressão não age sozinha
A investigação foi conduzida por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Os participantes foram recrutados por e-mail, WhatsApp e redes sociais.
A maioria era composta por mulheres (67,63%) e pessoas brancas (66,74%), com predominância de jovens adultos entre 18 e 39 anos.
A ideação suicida foi aferida por uma pergunta direta sobre pensamentos de morte ou autolesão nas duas semanas anteriores à pesquisa.
Qualquer resposta diferente de “nenhuma vez” foi registrada como indicativo de risco. Com esse critério, 18,86% dos participantes — ou seja, aproximadamente um em cada cinco — foram classificados no grupo de risco.
Os sintomas depressivos se confirmaram como os preditores de maior peso no modelo estatístico utilizado. No entanto, outros fatores responderam por cerca de metade da explicação total do fenômeno: sentimentos de solidão, nível de otimismo e histórico de maus-tratos emocionais na infância.
Infância, solidão e esperança
As experiências adversas na infância se destacaram nos resultados. Vivências como abuso emocional e negligência responderam por aproximadamente 22% do peso total no modelo de análise.
Sentimentos descritos pelos participantes como “ter sido uma criança indesejada” ou “ter sofrido abuso emocional” mostraram associação com a ideação suicida mesmo quando os sintomas depressivos foram isolados estatisticamente — o que indica que o histórico emocional precoce exerce influência própria sobre o sofrimento psíquico na vida adulta.
A solidão também apareceu como variável relevante. O estudo distingue entre isolamento físico e a sensação subjetiva de falta de companhia — e foi esta segunda dimensão a que demonstrou maior peso preditivo. Segundo os pesquisadores, esse sentimento pode intensificar o sofrimento emocional e ampliar a percepção de desconexão social, tornando o indivíduo mais vulnerável.
O otimismo, por sua vez, operou em sentido inverso. No modelo estatístico, ele apareceu com peso negativo: quanto maior o nível de otimismo relatado, menor a probabilidade de ideação suicida. Os autores associam esse achado à chamada teoria dos três passos do suicídio, segundo a qual a ideação emerge da combinação entre dor psicológica e desesperança. Nessa lógica, solidão e traumas alimentam a dor, enquanto o otimismo funciona como barreira contra a desesperança.
Método e limitações
Para processar os dados, os pesquisadores utilizaram um modelo de aprendizado de máquina chamado Multiple Kernel Learning (MKL), capaz de integrar variáveis de naturezas distintas — sintomas psicológicos, características demográficas e experiências de vida — em um único sistema preditivo. A escolha do método se justifica pela capacidade de identificar padrões em volumes elevados de informação e por permitir maior interpretabilidade dos resultados.
O estudo integra o projeto PSIcovidA, uma investigação longitudinal sobre saúde mental na comunidade acadêmica brasileira. Ao término da participação, todos os voluntários receberam orientações e contatos para suporte psicológico.
Os próprios autores apontam limites ao alcance das conclusões. O desenho transversal da pesquisa impede estabelecer relações de causa e efeito entre as variáveis. A amostra, composta exclusivamente por integrantes da comunidade acadêmica e coletada durante o período da pandemia de Covid-19, restringe a generalização dos achados para outros grupos populacionais e contextos.
Implicações para as universidades
Os resultados indicam que protocolos de triagem de saúde mental, voltados apenas à detecção de depressão deixam de captar uma parcela relevante do risco. Segundo os pesquisadores, abordagens mais abrangentes — que incluam rastreamento de solidão, histórico de traumas e promoção de vínculos sociais — podem ampliar a efetividade das políticas institucionais de prevenção.
A pesquisa recebeu financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Procure ajuda
Se você ou alguém próximo estiver em sofrimento emocional, o CVV — Centro de Valorização da Vida — atende pelo telefone 188, 24 horas por dia.
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