Ultrassom pode virar arma contra vírus respiratórios
Pesquisadores brasileiros publicam método que usa ondas sonoras para destruir SARS-CoV-2 e H1N1 sem efeitos colaterais nas células
Pesquisadores da Universidade de São Paulo desenvolveram uma técnica capaz de destruir vírus respiratórios usando ondas sonoras de alta frequência, sem causar danos às células humanas. Os resultados, publicados em abril de 2026 na revista Scientific Reports, mostram que a chamada ressonância acústica provoca a ruptura do envelope de patógenos como o SARS-CoV-2 e o H1N1, inviabilizando sua capacidade de infectar organismos.
O mecanismo por trás da destruição viral
A técnica funciona por um princípio geométrico. Vírus envelopados, que têm formato esférico, acumulam a energia das ondas sonoras em seu interior até atingir um ponto de colapso. “É mais ou menos como combater o vírus no grito. A energia das ondas sonoras provoca uma mudança morfológica nas partículas virais a ponto de elas explodirem, em um fenômeno comparável ao que acontece com uma pipoca”, afirma Odemir Martinez Bruno, professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP e coordenador do estudo.
O processo ocorre em frequências entre 3 e 20 MHz — faixa semelhante à dos aparelhos de ultrassom diagnóstico — e não altera temperatura nem pH do meio. Segundo Bruno, “a energia sonora se acopla à estrutura viral, excitando vibrações internas que levam à ruptura mecânica do envelope viral sem alterar temperatura ou pH do meio. O resultado é um mecanismo seletivo e seguro, já que apenas o vírus absorve a energia e é desestabilizado, sem representar risco às células humanas”.
Vantagens sobre antivirais convencionais
Uma das características apontadas pelos pesquisadores é a indiferença da técnica às mutações virais. Como o efeito depende do formato da partícula e não de sua composição genética, variantes como ômicron e delta não comprometem a eficácia do método.
Flávio Protásio Veras, professor da Universidade Federal de Alfenas (Unifal) e integrante da equipe, destaca o potencial mais amplo da abordagem: “Embora ainda esteja distante do uso clínico, trata-se de uma estratégia promissora contra vírus envelopados em geral, já que o desenvolvimento de antivirais químicos é complexo e de difícil resultado. Além disso, é uma solução ‘verde’, pois não gera resíduos, não causa impacto ambiental e não favorece a resistência viral”.
O grupo já conduz testes in vitro com outros vírus envelopados, entre eles os causadores de dengue, chikungunya e zika.
Colaboração e distinção do ultrassom convencional
O estudo reuniu especialistas de diversas áreas: físicos do IFSC, virologistas e imunologistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e da Unesp.
A pesquisa contou ainda com a participação de Charles Rice, professor da Universidade Rockefeller (EUA) e laureado com o Nobel de Medicina em 2020, que forneceu vírus fluorescentes para visualização em tempo real dos experimentos.
Os pesquisadores distinguem a ressonância acústica da cavitação, fenômeno já utilizado na esterilização de equipamentos odontológicos e cirúrgicos.
Enquanto a cavitação opera em baixas frequências e destrói qualquer material biológico pelo colapso de bolhas de gás, a ressonância acústica age de forma seletiva, afetando apenas as partículas com geometria compatível com a absorção sonora.
A pesquisa foi financiada pela FAPESP por meio de seis projetos distintos.
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