Tratamento de esclerose múltipla cresce quase 26% no SUS
Levantamento aponta aumento do número de pacientes atendidos, mas revela desigualdade regional no acesso a remédios mais modernos
Um estudo conduzido por pesquisadores do Hospital Israelita Albert Einstein identificou aumento de 25,9% no número de pacientes com esclerose múltipla tratados pelo SUS entre 2019 e 2023.
A pesquisa, publicada na revista Multiple Sclerosis and Related Disorders, analisou registros de 27 mil pessoas atendidas pelo sistema público em todo o país. O trabalho aponta ainda distorções na forma como o tratamento é oferecido conforme a região do Brasil.
A esclerose múltipla é uma doença autoimune que compromete o sistema nervoso central: o organismo passa a atacar a bainha de mielina, camada que reveste os neurônios e permite a condução dos impulsos nervosos. O dano provoca lesões no cérebro e na medula espinhal, causando sintomas como fraqueza muscular, dificuldades motoras, alterações visuais e fadiga.
Mudança de protocolo ampliou acesso a remédios
A elevação no número de pacientes tratados está ligada à atualização do protocolo clínico do SUS em 2021, que passou a permitir a prescrição de medicamentos de alta eficácia logo no início do tratamento. Antes da mudança, era necessário iniciar com fármacos de menor potência antes de avançar para opções mais eficazes.
Segundo a neurologista Lívia Almeida Dutra, coordenadora do Instituto do Cérebro do Einstein e líder do estudo, “a prescrição de medicações de alta eficácia aumentou em todas as regiões do Brasil, mas de forma desigual e heterogênea”. Ela cita como possíveis causas dificuldades na estrutura de atendimento, escassez de centros de infusão e entraves na distribuição dos remédios.
Diagnóstico tardio ainda é obstáculo
Outro fator que compromete o cuidado aos pacientes é a demora no diagnóstico da doença. De acordo com a neurologista Claudia Vasconcelos, da Academia Brasileira de Neurologia, o atraso decorre principalmente da espera por exames complementares, sobretudo a ressonância magnética de crânio, considerada o principal método para confirmar lesões cerebrais e medulares.
Vasconcelos, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, observa que sintomas da doença costumam ser mal interpretados na atenção básica, sendo confundidos com quadros de ansiedade ou problemas ortopédicos: “Os pacientes não são direcionados ao neurologista”.
Para ela, ampliar o acesso a exames de ressonância e análise do líquor, além de capacitar profissionais da atenção primária, seria necessário para antecipar diagnósticos e reduzir os efeitos dos surtos da doença.
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