Resistência a antibióticos aumenta e preocupa autoridades
Organismo da ONU aponta crescimento global de bactérias resistentes a tratamentos, com risco a cirurgias e terapias contra o câncer
Uma em cada seis infecções bacterianas confirmadas em laboratório no mundo já não responde a antibióticos, segundo levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS). O órgão classifica esse quadro entre as dez maiores ameaças à saúde pública global, com potencial de tornar novamente difícil o tratamento de doenças como pneumonia, tuberculose, gonorreia e salmonelose.
A resistência antimicrobiana é impulsionada pelo uso excessivo de medicamentos em humanos, animais de produção e no meio ambiente, aponta a OMS. Estima-se que o fenômeno cause diretamente mais de 1 milhão de mortes por ano no mundo.
Avanço das superbactérias
Silvia Costa, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e chefe do Laboratório de Bacteriologia do Hospital das Clínicas, explica ao Jornal da USP que “as chamadas ‘superbactérias’ são microrganismos resistentes a múltiplas classes de antibióticos. A indução da resistência pode ocorrer por diferentes mecanismos, sendo amplamente discutida na comunidade científica a influência do uso inadequado ou excessivo de antibióticos”.
A pesquisadora aponta ainda outras causas pouco conhecidas do público: “Fatores como exposição à radiação, presença de metais pesados como o mercúrio e até mesmo o impacto da crise climática, com o aumento das temperaturas globais, podem favorecer a seleção e disseminação de cepas resistentes”.
Um relatório da ONU, elaborado com dados de mais de 100 países coletados entre 2016 e 2023, mostrou aumento da resistência a antibióticos em cerca de 40% das amostras monitoradas no período.
Disseminação e custos
Nilton Lincopan, docente do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, explica que certas bactérias resistentes se adaptaram com facilidade a ambientes humanos, animais e naturais: “Isso leva a uma disseminação rápida, principalmente ao nível intra e inter-hospitalar, acelerado por condutas humanas que deveriam ser mais bem controladas”.
De acordo com o pesquisador, funcionários de hospitais em contato com itens contaminados, viajantes que retornam ao país e pacientes internados por longos períodos em unidades de terapia intensiva contribuem para a propagação das bactérias multirresistentes.
Um relatório do Global Leaders Group on Antimicrobial Resistance (GLG), vinculado à ONU, projeta que o custo global para tratar apenas infecções bacterianas resistentes chegue a US$ 412 bilhões por ano até 2035, mantido o ritmo atual de resposta ao problema. As perdas adicionais de produtividade são estimadas em US$ 443 bilhões anuais.
Dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) indicam mais de 2,8 milhões de infecções resistentes a antibióticos por ano no país, com mais de 35 mil mortes associadas. Na União Europeia, a resistência microbiana é relacionada a cerca de 33 mil mortes anuais e a um custo estimado de 1,5 bilhão de euros por ano em saúde e perda de produtividade.
Riscos a pacientes e tratamentos
Infecções por bactérias multirresistentes reduzem as opções terapêuticas disponíveis, elevam o risco de complicações, prolongam internações e aumentam a mortalidade, segundo Silvia Costa. Casos de infecções urinárias, respiratórias, sexualmente transmissíveis, pneumonias e tuberculose tornam-se mais difíceis de tratar.
“Nos casos de bactérias pan-resistentes, em que não há alternativas eficazes de tratamento, o risco de óbito é extremamente elevado. Nessas situações, muitas vezes recorre-se à combinação de antibióticos em uma tentativa heroica de salvar o paciente, ainda que com resultados incertos”, relata a professora.
Pacientes imunodeprimidos, em hemodiálise ou em tratamento quimioterápico estão entre os grupos de maior risco, segundo Lincopan, que também destaca que pessoas e animais podem carregar bactérias resistentes sem apresentar sintomas, transmitindo-as posteriormente a pacientes vulneráveis.
Medidas de contenção
Automedicação, desinformação e falhas no controle de infecções em serviços de saúde figuram entre os fatores que favorecem a resistência bacteriana. Segundo Silvia Costa, a combinação de diferentes medicamentos no trato digestivo também eleva esse risco em pacientes que usam antibióticos ou analgésicos por conta própria.
A professora aponta ainda consequências ambientais: fármacos descartados sem tratamento adequado no esgoto favorecem a disseminação de bactérias resistentes em rios, o que pode atingir animais e, posteriormente, seus tutores.
“O alerta é claro: práticas como a automedicação e o uso de medicamentos vencidos não apenas comprometem a eficácia do tratamento, como também aumentam o risco de resistência bacteriana e complicações graves”, diz Silvia Costa.
O conceito de Saúde Única, adotado pelo GLG, propõe tratar de forma integrada a saúde humana, animal e ambiental para reduzir a disseminação de bactérias resistentes.
No Brasil, o Grupo Mulheres do Brasil mantém a campanha Remédio: Não Usou, Descartou, voltada ao descarte correto de medicamentos vencidos ou não utilizados em farmácias e unidades básicas de saúde.
Pontos de coleta da iniciativa podem ser consultados no site descarteconsciente.com.br.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)