Obesidade supera desnutrição entre jovens pelo mundo
Pela primeira vez na história, número de crianças e adolescentes obesos supera o de desnutridos; no Brasil, metade dos jovens estará acima do peso em 2035
A obesidade ultrapassou a desnutrição entre crianças e adolescentes em idade escolar em todo o mundo. O dado foi divulgado pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), e marca uma virada histórica no perfil nutricional da população jovem global.
No Brasil, o quadro acompanha a tendência: a obesidade infantil triplicou nas últimas duas décadas, e metade das crianças e adolescentes do país pode estar acima do peso até 2035, segundo projeções divulgadas por pesquisadores da área.
Ambiente moldado para o excesso
Para Eduardo Nilson, pesquisador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP, o fenômeno não se explica por escolhas individuais.
O que ele chama de “ambiente alimentar obesogênico” é o fator determinante: alimentos ultraprocessados ficaram mais baratos, estão disponíveis em qualquer ponto de venda e são promovidos por publicidade direcionada ao público jovem.
Esse cenário se agrava em comunidades com pouco acesso a alimentos in natura — os chamados desertos alimentares. Nessas regiões, a estrutura urbana também dificulta a prática de atividade física, inclusive as brincadeiras ao ar livre, comuns na infância. O sedentarismo, potencializado pelo tempo prolongado diante de telas, completa o quadro.
“As evidências atuais indicam que o principal fator é a combinação inadequada de alimentação, especialmente o consumo elevado de alimentos ultraprocessados, que vêm substituindo alimentos in natura e minimamente processados, além de longas horas em frente a telas, aumentando o sedentarismo”, afirmou Nilson ao Jornal da USP.
Consequências que vão além da balança
Os efeitos da obesidade na infância e adolescência não se limitam ao peso. Crianças acima do peso têm maior probabilidade de desenvolver diabetes tipo 2, hipertensão, asma, apneia do sono e problemas musculoesqueléticos ainda antes da vida adulta. A saúde mental também é afetada: há associação entre obesidade infantil, baixa autoestima e maior exposição a bullying.
O desempenho escolar tende a ser inferior, e a frequência às aulas, menor. Na vida adulta, as consequências se estendem ao mercado de trabalho: menor empregabilidade, queda de produtividade e salários mais baixos estão entre os impactos documentados. A obesidade na infância é apontada como preditor de obesidade adulta e de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer.
Políticas em conjunto
Nilson defende que intervenções isoladas têm pouco efeito. A orientação nutricional, por exemplo, perde eficácia quando os alimentos saudáveis são inacessíveis financeiramente ou geograficamente. A resposta, segundo ele, exige ação simultânea em várias frentes.
Entre as medidas indicadas estão a tributação de ultraprocessados, subsídios a alimentos in natura produzidos localmente, regulação da publicidade alimentar voltada a crianças, controle da comercialização de alimentos dentro das escolas e aperfeiçoamento da rotulagem nutricional frontal.
“É fundamental que haja múltiplas estratégias e políticas que atuem em conjunto para fazer que hábitos saudáveis sejam os mais acessíveis e fáceis”, disse o pesquisador. Ele acrescenta que a melhora dos espaços urbanos para a prática de atividade física e a redução do tempo de tela em todas as faixas etárias também fazem parte do conjunto de medidas necessárias.
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