Médicos deveriam começar a prescrever… esperança?
Cuidados éticos com prognósticos envolvendo vida e morte ganham nuances depois de estudos de psicologia e fisiologia
Um dos ensinamentos implícitos em cursos de medicina, é que médicos devem ser objetivos e cuidadosos quanto ao prognóstico de pacientes. Do ponto de vista da ética médica – e também para se precaver de possíveis acusações –, eles não podem demonstrar otimismo exagerado, nem prometer ou sugerir bons resultados em casos que envolvam a vida do paciente.
Mas novas pesquisas indicam uma conexão importante entre a saúde mental, especialmente as ideias de esperança e otimismo, e os resultados clínicos de pacientes com doenças cardíacas.
Um estudo recente, que analisou mais de cinco mil indivíduos, indica que altos níveis de esperança estão associados a uma melhor qualidade de vida e a um risco significativamente menor de mortalidade. Essas descobertas se somam a décadas de evidências sobre o efeito placebo, sugerindo que a crença e a expectativa podem ser ferramentas poderosas no processo de cura.
A ciência por trás da conexão mente-corpo
A relação entre pensamentos e fisiologia tem sido um campo de estudo fascinante. De acordo com Jessica Hamzelou, pesquisas têm demonstrado como as percepções individuais podem moldar a experiência de uma doença e a resposta a tratamentos. Um dos pilares dessa compreensão é o fenômeno do “efeito placebo”, onde uma substância inerte, como uma pílula de açúcar, pode provocar efeitos terapêuticos notáveis. Centenas de estudos demonstram que placebos podem aliviar sintomas de dor, enxaqueca, Parkinson, depressão e ansiedade, e sua eficácia pode ser influenciada por fatores como cor, formato ou até preço.
No entanto, o inverso também é verdadeiro. O “gêmeo maligno” do placebo, o “efeito nocebo”, ilustra como as expectativas negativas podem materializar ou exacerbar sintomas reais, incluindo dores e desconfortos gastrointestinais. Embora a ciência já identifique o envolvimento de substâncias químicas cerebrais, como opioides naturais, nos efeitos placebo e nocebo, os mecanismos exatos dessa intrincada conexão mente-corpo permanecem um mistério a ser desvendado.
Nesse contexto, pesquisadores como Alexander Montasem, professor de Psicologia na Universidade de Liverpool, têm se dedicado a entender como cultivar a esperança nos pacientes. Em sua mais recente pesquisa, Montasem e sua equipe revisaram a literatura sobre a relação entre esperança e desfechos cardíacos, definindo esperança como “um estado motivacional positivo” impulsionado pela capacidade de agir e formular planos para alcançar objetivos pessoais.
Os resultados compilados de doze estudos, envolvendo mais de 5.000 pessoas, foram apresentados no congresso da British Cardiovascular Society, em Manchester, e confirmaram a ligação entre altos níveis de esperança e melhores resultados de saúde, como menos angina, menor fadiga pós-AVC e um risco reduzido de morte.
Prescrevendo esperança: ética e aplicações práticas
Diante do impacto dos pensamentos na saúde, surge a questão ética de como os profissionais de saúde podem aproveitar esse poder. Daí a importância da honestidade médica, argumentando contra qualquer forma de engano ao paciente. A abordagem ética, conforme Alexander Montasem sugere, reside em buscar maneiras de nutrir a esperança do paciente sem distorcer a realidade do diagnóstico ou superestimar os efeitos de um medicamento. Isso pode pressupõe ajudar os pacientes a refletir sobre seus próprios objetivos, sua capacidade de agir e sua perspectiva geral da vida.
Pesquisas iniciais já corroboram a eficácia dessa estratégia. Um trabalho de Laurie McLouth, da Universidade de Kentucky, demonstrou que sessões de diálogo focadas em valores, metas e estratégias de alcance elevaram os níveis de esperança em pacientes com câncer de pulmão avançado.
Montasem planeja aprofundar esses estudos, buscando desenvolver uma estratégia abrangente e individualizada para fortalecer a esperança, reconhecendo que diferentes pessoas podem responder a abordagens variadas, incluindo as de natureza espiritual ou religiosa.
Essa filosofia de cultivo da esperança transcende o ambiente clínico. Para o público em geral, Montasem aconselha a definição de objetivos pessoais claros e a elaboração de planos concretos para alcançá-los. Ele ressalta que metas materialistas tendem a ser menos benéficas para o bem-estar duradouro, enquanto o foco em progresso de pesquisa, ajuda a pacientes e tempo em família são exemplos de objetivos mais significativos. A essência, ele conclui, é a perseverança: “No momento em que desistimos [de buscar] nossos objetivos, começamos a cair na desesperança”.
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