Cientistas encontraram morcego que pode causar nova epidemia. Há motivos para pânico?
Quando se fala no risco de novas epidemias, os morcegos costumam aparecer em primeiro plano por abrigarem uma grande diversidade de vírus.
Quando se fala no risco de novas epidemias, os morcegos costumam aparecer em primeiro plano por abrigarem uma grande diversidade de vírus, mas pesquisas recentes mostram que o perigo varia entre as espécies e depende em grande medida do contexto ambiental e do grau de contato com as atividades humanas.
O que é o potencial epidêmico viral
Um estudo internacional publicado pela Communications Biology analisou dados de centenas de mamíferos e de mais de uma centena de vírus para entender quais fatores determinam o chamado potencial epidêmico viral.
Esse conceito se refere à capacidade de um vírus causar doença grave, transmitir-se com facilidade entre pessoas e provocar um número elevado de mortes.
Os resultados colocam em dúvida a ideia de que todos os morcegos representam um risco semelhante e apontam uma concentração do perigo em certos ramos da árvore evolutiva.
O risco aumenta quando coincidem alta diversidade viral e maior probabilidade de contato com as pessoas, em vez de estar distribuído de forma igual em todo o grupo dos morcegos.
Por que alguns grupos de morcegos representam mais risco
No caso dos morcegos, certas famílias concentram mais vírus associados a surtos graves em humanos, como os morcegos-de-ferradura (Rhinolophidae) e vários grupos insetívoros muito disseminados (Vespertilionidae, Molossidae e Emballonuridae).
Essas espécies se adaptam bem a ambientes modificados pelo ser humano e vivem em muitos países, o que aumenta as oportunidades de contato.
O risco de spillover — o salto de um vírus da fauna silvestre para as pessoas — depende tanto da biologia do morcego quanto do ambiente em que ele vive e da frequência de contato com humanos e animais domésticos.
Adaptações imunológicas que toleram infecções prolongadas favorecem a diversidade viral mantida nas colônias, permitindo que múltiplos vírus circulem por longos períodos sem eliminar seus hospedeiros.
Quais fatores aumentam a chance de spillover
O risco não é determinado apenas pelos vírus presentes, mas por um conjunto de fatores biológicos, ecológicos e humanos que interagem entre si.
Compreender esses elementos ajuda a identificar situações em que o contato entre morcegos, pessoas e animais domésticos se torna mais perigoso.
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Fatores Críticos para o Aumento de Spillover
- Tipos de vírus presentes
- Resposta imunológica
- Tamanho das colônias
- Padrões de reprodução em abrigos
- Habitat e mobilidade
- Padrões de migração
- Uso de refúgios humanos
- Disponibilidade de alimento (urbano/agrícola)
- Desmatamento e expansão agrícola
- Urbanização e caça
- Consumo de carne silvestre
- Manejo inadequado de resíduos e gado
Onde se concentram os morcegos com maior potencial epidêmico
Ao sobrepor a distribuição das espécies de alto potencial epidêmico com mapas de impacto humano, pesquisadores identificaram zonas críticas em regiões da América Central, costa norte e oriental da América do Sul, partes da África equatorial e extensas áreas do Sudeste Asiático.
Nesses locais, há grande diversidade de morcegos e intensa transformação do uso da terra. Monocultivos, fragmentação de florestas e construção de infraestruturas aproximam continuamente pessoas e gado das colônias.
A perda de refúgios naturais leva muitos morcegos a ocupar edificações, pontes e túneis, multiplicando os contatos e aumentando a probabilidade de surgimento de novos surtos virais, inclusive em sistemas de produção de alimentos intensivos, como granjas e fazendas de gado.
Como reduzir o risco sem demonizar os morcegos
O estudo propõe uma vigilância dirigida, concentrando esforços nos grupos de morcegos e nas regiões onde o potencial epidêmico é maior, em vez de tentar monitorar todas as espécies igualmente.
Os autores destacam que eliminar colônias ou perseguir morcegos não reduz o risco e pode até intensificá-lo, ao aumentar o estresse, os deslocamentos e a circulação de vírus.
Medidas como conservar e restaurar habitats naturais, limitar o desmatamento em áreas ricas em morcegos, implementar barreiras físicas e boas práticas de higiene em criações de animais e melhorar o manejo de fauna e gado em zonas de alto contato são consideradas mais eficazes.
Assim, é possível proteger a saúde humana sem comprometer o papel ecológico desses mamíferos, essenciais para o controle de insetos, a polinização e a dispersão de sementes, contribuindo inclusive para a agricultura e para a manutenção de florestas saudáveis.
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