Barriguinha de chope — ou de estresse?
Pesquisador explica por que a tensão prolongada altera o metabolismo e direciona gordura para a região abdominal
Manter níveis elevados de cortisol por longos períodos, consequência do estresse crônico, interfere no metabolismo e provoca o depósito de gordura especificamente na barriga, mesmo em pessoas com dieta equilibrada.
O alerta vem de Rafael Appel Flores, pesquisador em neuroendocrinologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, que explica os mecanismos biológicos por trás do fenômeno conhecido popularmente como “barriga de estresse”.
Por que a gordura vai para a barriga?
A explicação está na biologia do tecido adiposo visceral. A gordura localizada na região abdominal possui uma concentração maior de receptores de cortisol do que a gordura depositada em outras partes do corpo, como quadris e coxas. Isso faz com que o organismo, sob tensão constante, direcione o armazenamento de energia para essa área específica.
“Funciona como se a gordura da região abdominal tivesse uma espécie de ‘antena’, capaz de captar com mais intensidade os sinais do cortisol. Quando esse sinal é captado, essa gordura tende a se acumular cada vez mais”, afirma Flores ao Jornal da USP.
O problema se aprofunda porque a gordura visceral é metabolicamente ativa: ao se acumular, libera substâncias inflamatórias que prejudicam ainda mais o metabolismo, criando um ciclo de difícil reversão.
Dieta equilibrada não neutraliza o efeito
Um dado contraintuitivo destacado pelo pesquisador é que o estresse crônico atua por vias hormonais independentes da alimentação. Ou seja, mesmo quem mantém uma dieta balanceada pode ganhar peso abdominal se viver sob tensão constante.
O cortisol elevado também age no comportamento: aumenta o apetite — especialmente por alimentos calóricos, como doces e gorduras — e reduz a disposição para a prática de atividades físicas. “Mesmo sob estresse, quem tem uma alimentação equilibrada está mais protegido do que quem não mantém esses cuidados”, pondera Flores.
A rotina sedentária e o excesso de tempo diante de telas agravam o quadro. Em contrapartida, ao menos 30 minutos de atividade física na maioria dos dias, aliados a práticas de relaxamento, cuidado com o sono e manutenção de vínculos sociais, contribuem para reduzir o problema.
Homens e mulheres não são afetados da mesma forma
O sexo influencia a resposta do organismo ao estresse. Homens tendem a apresentar uma reação de cortisol mais intensa e, por isso, acumulam mais gordura visceral em situações de tensão prolongada.
Mulheres, antes da menopausa, contam com uma proteção hormonal proporcionada pelo estrogênio, que favorece o depósito de gordura em regiões consideradas metabolicamente menos prejudiciais, como quadris e coxas. Esse quadro se altera após o climatério.
“Após a menopausa, a queda na produção de estrogênio faz com que elas passem a acumular mais gordura abdominal de forma semelhante aos homens, o que aumenta de forma significativa o risco metabólico”, conclui Flores.
Para o pesquisador, controlar o estresse não é uma medida opcional. “O manejo do estresse não é um luxo, mas uma necessidade, com impacto real na saúde” — incluindo a prevenção de doenças metabólicas como o diabetes.
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