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Redata põe o Brasil na corrida dos data centers. Mas qual corrida queremos disputar?
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Carlos Graieb
7 minutos de leitura 31.08.2026 18:21 comentários
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Redata põe o Brasil na corrida dos data centers. Mas qual corrida queremos disputar?

Brasil já responde por aproximadamente metade da capacidade instalada de data centers na América Latina

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Carlos Graieb
7 minutos de leitura 31.08.2026 18:21 comentários 0
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Talent and Innovation Valley in Hohhot, Mongólia. (Foto: Xinhua News)
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O Senado colocou o Redata no topo da pauta desta terça-feira, 1º de setembro, mas a votação ainda não pode ser dada como certa.

O PL 278/2026 segue formalmente pendente do parecer do relator, Cid Gomes (PSB-CE), e o requerimento de urgência também precisa ser apreciado.

A matéria entrou no esforço concentrado depois de ser incluída entre as prioridades acertadas por Lula, Davi Alcolumbre (União-AP) e Hugo Motta (Republicanos-PB).

Por que isso importa

Há uma onda global de investimentos em infraestrutura para inteligência artificial, e o Brasil não parte do zero. O país já responde por aproximadamente metade da capacidade instalada de data centers na América Latina.

Para 2026, a JLL projeta um ano recorde: 106 MW foram entregues apenas no primeiro semestre, outros 134 MW estavam previstos para a segunda metade do ano, e há 660 MW em construção, associados a cerca de US$ 17,4 bilhões em investimentos.

A aprovação do Redata pode melhorar a posição brasileira nessa disputa.

Mas a pergunta relevante é qual infraestrutura digital queremos construir, a que custo e com quais efeitos sobre energia, inovação e capacidade tecnológica nacional.

O que está na mesa

O Redata suspende por cinco anos tributos federais sobre equipamentos destinados à instalação ou ampliação de data centers, incluindo PIS/Cofins, IPI e, em determinadas situações, Imposto de Importação.

Se as exigências forem cumpridas, a suspensão converte-se em alíquota zero.

A estimativa oficial de impacto fiscal é de 5,2 bilhões de reais em 2026 e aproximadamente 1 bilhão de reais em cada um dos dois anos seguintes.

Em troca, o texto aprovado na Câmara determina que pelo menos 10% da capacidade beneficiada de processamento e armazenamento seja destinada ao mercado interno, exige energia limpa ou renovável e eficiência hídrica e obriga as empresas a investir no país o equivalente a 2% do valor dos equipamentos incentivados.

O projeto recebeu 22 emendas no Senado.

Entre elas estão propostas para estabelecer conteúdo nacional mínimo nos equipamentos, reconhecer água de reúso, alterar benefícios regionais e ampliar as fontes energéticas admitidas.

Laércio Oliveira (PP-SE), por exemplo, quer explicitar gás natural, energia nuclear e biometano como fontes complementares. Essa mudança também é defendida pela carta que reuniu 11 frentes parlamentares e 35 entidades empresariais.

O setor privado apoia a aprovação, mas quer ajustes. Teme ainda que modificações feitas pelo Senado devolvam o projeto à Câmara e prolonguem novamente a tramitação.

Panorama: dois caminhos no exterior

Os Estados Unidos oferecem um alerta sobre o custo político de expandir data centers sem resolver previamente quem paga pela infraestrutura.

A reação local contra a instalação dos centros tornou-se bipartidária, com moratórias e novas restrições. As preocupações se concentram sobretudo em redes elétricas sobrecarregadas, contas de energia, água e impacto territorial.

A questão chegou ao ponto de Donald Trump intervir diretamente no debate, argumentando que data centers são indispensáveis para a competição americana com a China.

O contraponto dentro do próprio governo americano é igualmente instrutivo: JD Vance defendeu que empresas responsáveis pelos projetos adicionem energia ao sistema, em vez de simplesmente consumir capacidade existente.

A China tomou uma direção diferente. Na Mongólia Interior, um dos principais polos da estratégia conhecida como “East Data, West Computing”, a política procura conectar regiões ricas em energia renovável às áreas orientais onde está concentrada a demanda por computação.

O recém-inaugurado Envision Galaxy Campus, em Ulanqab, ilustra a escala: capacidade planejada de 2 GW, suporte computacional equivalente a até 1 milhão de GPUs e mais de 80% da eletricidade diretamente proveniente de renováveis.

O projeto integra uma iniciativa que pretende combinar 5 GW de capacidade computacional com geração renovável e armazenamento até 2030.

O ponto relevante é a natureza da política adotada: data center, energia e IA são tratados como partes da mesma infraestrutura econômica.

Lupa: energia ou capacidade computacional?

O Brasil tem vantagens reais: matriz elétrica limpa, disponibilidade de terrenos, conectividade internacional e uma posição já estabelecida na América Latina.

São Paulo sozinho concentra 38% da capacidade brasileira, e a JLL identifica também cabos submarinos e acesso a energia de custo competitivo entre as vantagens do país.

Mas transformar eletricidade em computação não é automático.

Hoje, o setor relata uma situação paradoxal: o país convive com curtailment, isto é, energia gerada que não consegue ser aproveitada, enquanto faltam redes de transmissão para conectar novos data centers. Segundo executivos do setor, uma conexão à rede básica pode levar sete anos, contra aproximadamente dois anos para colocar um projeto em operação.

Há também uma discussão sobre o valor econômico que permanece no país.

Em audiência no Senado, especialistas questionaram uma estratégia na qual boa parte dos empregos aparece durante a construção, enquanto o processamento serve principalmente a empresas estrangeiras e os impactos ambientais ficam no Brasil.

Esse ponto interessa especialmente à formulação de políticas públicas: o país se posiciona para desenvolver, ao redor da infraestrutura computacional, pesquisa, modelos de IA, serviços, software, hardware, armazenamento e aplicações?

O Redata contém sementes dessa segunda estratégia — reserva de capacidade interna e investimento obrigatório no país. Mas o desenho institucional necessário é mais amplo.

De olho no futuro

Se o Redata for aprovado no formato atual, o trabalho de relações governamentais no setor está longe de terminar. 

Energia e transmissão: A principal vantagem comparativa brasileira perde valor se o investidor encontrar eletricidade disponível, mas não conseguir conexão. Autoprodução, expansão da rede, armazenamento por baterias e regras que permitam aos grandes consumidores participar de reforços de infraestrutura devem permanecer na agenda. 

Alocação dos custos: O debate americano mostra como um setor politicamente popular pode rapidamente se tornar tóxico quando moradores acreditam estar subsidiando grandes plataformas por meio das próprias tarifas de energia. No Brasil, especialistas já levantam essa preocupação, argumentando que investimentos para atender cargas intensivas podem ser distribuídos pela tarifa de todos os consumidores.

Pesquisa e desenvolvimento: A exigência de investimento precisa ser acompanhada para saber se cria apenas uma obrigação contábil ou se ajuda efetivamente a formar capacidade brasileira em IA, chips, refrigeração, eficiência energética, software e computação científica.

Mercado doméstico de computação: Reservar 10% da capacidade é uma coisa; garantir que empresas, universidades e pesquisadores brasileiros tenham condições de utilizar capacidade avançada a preços competitivos é outra.

Eficiência tecnológica: Há uma variável que o entusiasmo com grandes projetos tende a esquecer: a própria IA está mudando. Pesquisadores de Berkeley argumentam que modelos menores, eficientes e abertos estão reduzindo rapidamente sua distância para modelos de fronteira e que parte crescente das tarefas poderá ser realizada em hardware local, sem recorrer a grandes data centers. Isso não elimina a demanda por infraestrutura, mas recomenda cautela com projeções que transformam cada aumento no uso de IA em uma necessidade equivalente de novos gigawatts.

Resumo da ópera

A aprovação do Redata será positiva para o Brasil. Existe uma janela de investimentos, o país já dispõe de uma base importante e seus concorrentes não estão parados. Mas incentivos fiscais são apenas a primeira camada da disputa.

Os Estados Unidos mostram o risco de construir infraestrutura sem obter legitimidade social e sem definir claramente quem absorve seus custos.

A China mostra o ganho potencial de integrar energia, armazenamento, capacidade computacional e política de IA. O Brasil precisa encontrar seu modelo.

O sucesso do Redata não deve ser medido apenas em megawatts instalados ou bilhões de reais anunciados. O indicador mais importante será quanto dessa energia convertida em computação se transforma em capacidade tecnológica e produtividade dentro do país.

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Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

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