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Problema de produtividade do Brasil começa na escola, mostra o Pisa 
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Carlos Graieb
6 minutos de leitura 08.09.2026 13:32 comentários
Oráculo

Problema de produtividade do Brasil começa na escola, mostra o Pisa 

Déficit de aprendizagem é gargalo para empresas e para o crescimento brasileiro

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Carlos Graieb
6 minutos de leitura 08.09.2026 13:32 comentários 0
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Problema de produtividade do Brasil começa na escola, mostra o Pisa 
Foto: Reprodução
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Há uma década, o Brasil não consegue melhorar os níveis de aprendizado do ensino básico. Esse é o triste fato revelado pelo Pisa, o mais importante exame internacional de desempenho educacional, que na edição mais recente avaliou alunos de 15 anos de 91 países. Os novos dados foram divulgados nesta terça-feira, 8.

Em 2025, os brasileiros obtiveram 377 pontos em matemática, 409 em ciências e 408 em leitura. Em matemática, o resultado é exatamente o mesmo de 2015; nas outras duas áreas, a variação no período tampouco representa uma mudança estrutural. 

Os rankings — 71º lugar em matemática, 67º em ciências e 52º em leitura — dão uma dimensão do atraso. O dado realmente preocupante, no entanto, é que o Brasil não consegue reduzir substancialmente o contingente de jovens que chegam aos 15 anos sem dominar competências básicas.

Em matemática, 72% dos brasileiros estão abaixo do nível mínimo de proficiência, contra 35% na média dos países da OCDE. Em ciências, são 52%, ante 26%; em leitura, 51%, contra 31%. Mais grave: 43,8% dos estudantes brasileiros estão abaixo do mínimo nas três disciplinas, mais que o dobro dos 19,7% registrados na OCDE.

Em termos práticos, isso significa que milhões de jovens chegam ao fim da educação básica com dificuldades para interpretar textos, utilizar conceitos matemáticos em situações relativamente simples e compreender evidências científicas.

Há ainda uma novidade. O Pisa detectou deterioração internacional em habilidades relacionadas à avaliação de informações e à reflexão crítica. Isso é significativo na era da inteligência artificial, quando a capacidade de formular respostas para problemas perde importância relativa diante da capacidade de avaliá-la e descobrir se está errada. Para um país que já parte de um patamar baixo, a interação com a IA acrescenta uma nova camada ao problema do aprendizado.

Por que isso importa

O primeiro custo é social. Baixa aprendizagem reduz oportunidades e impede a mobilidade social.

Mas há um segundo custo que deve ser trazido ao centro dos debates econômicos: uma população que aprende pouco também constitui uma força de trabalho menos produtiva.

O problema começa na escola, mas não termina nela. Reaparece anos depois, na dificuldade de empresas encontrarem técnicos, engenheiros, programadores, gestores e outros profissionais capacitados. 

Dito de outra maneira, a educação é parte da infraestrutura econômica do país – uma parte que demanda melhorias.

Panorama

A Pesquisa Global de Escassez de Talentos 2026, do ManpowerGroup, mostra que 80% dos empregadores brasileiros têm dificuldade para preencher vagas, acima da média mundial de 72%. O Brasil aparece entre os países com maior dificuldade de contratação, e o indicador permanece perto de 80% desde 2023.

Não é uma escassez restrita à tecnologia. Serviços científicos e técnicos apresentam dificuldade de contratação em 85% das empresas pesquisadas; informação, em 83%; comércio e logística, manufatura, hospitalidade, serviços públicos e recursos naturais, em 79%.

Quando falta mão de obra qualificada, vagas ficam abertas, empresas disputam os mesmos profissionais, salários podem subir sem ganho equivalente de produtividade, projetos demoram mais e investimentos deixam de entregar todo o retorno esperado. No limite, a escassez de competências reduz o crescimento potencial da economia e pode alimentar pressões de custos.

Lupa

A engenharia oferece um bom estudo de caso porque conecta diretamente educação, investimento e produtividade.

O Brasil vive nova expansão dos investimentos em infraestrutura, mas encontra dificuldade para fornecer o capital humano necessário para executá-los. Estimativa do Sinicon aponta déficit atual de cerca de 75 mil engenheiros, com possibilidade de chegar a 500 mil em 2030 caso as tendências de oferta e demanda se mantenham.

Há uma longa cadeia por trás dessa escassez. O ensino básico entrega poucos estudantes com boa formação quantitativa. As matrículas em engenharia caíram cerca de 30% entre 2015 e 2024. A evasão universitária é elevada. E parte dos que conseguem o diploma abandona a profissão em busca de carreiras mais atraentes, sobretudo no mercado financeiro.

O que fazer

Em pesquisa analisada por Paul Ferreira e Paulo Tadeu de Resende, da FGV EAESP, 67% das empresas consultadas consideravam difícil ou muito difícil encontrar profissionais capacitados, e 45% tinham vagas abertas por falta de candidatos aptos.

Capital humano já não é algo que as empresas possam estar certas de adquirir no mercado. Para certas tarefas, elas terão de investir na sua formação.. 

Entram aí upskilling, para desenvolver novas competências no profissional que continuará exercendo funções próximas às atuais, e reskilling, para prepará-lo para funções diferentes. 

Pode haver ganhos significativos nessa estratégia. Entre as empresas da pesquisa mencionada, os programas de qualificação e requalificação estavam associados a aumento da produtividade em 59% dos casos, retenção de funcionários em 57% e redução do risco de contratações inadequadas em 39%.

Isso sugere uma estratégia mais ampla: mapear antecipadamente skill gaps, recrutar também por potencial de aprendizagem, investir em treinamento contínuo, estruturar onboarding, criar trajetórias profissionais e usar qualificação como instrumento de retenção.

O que deve entrar na pauta dos empresários

Em ano eleitoral, o Pisa deveria deixar de ser assunto exclusivo de educadores.

Empresários deveriam cobrar dos presidenciáveis algo mais preciso do que promessas genéricas de “melhorar a educação”.

O primeiro ponto: metas claras de aprendizagem durante um mandato. 

O segundo: articulação entre ensino médio, educação técnica e demanda produtiva. Se empresas dizem não encontrar determinadas competências, programas de governo podem abordar essa deficiência. 

O terceiro: formação STEM (sigla em inglês para “ciência, tecnologia, engenharia e matemática). O déficit de engenheiros mostra que não basta anunciar bilhões em infraestrutura, transição energética, semicondutores, data centers ou inteligência artificial sem perguntar quem vai executar as tarefas correlatas.

O quarto: o setor privado já paga uma parte da conta do aprendizado de quem chega ao mercado de trabalho sem as competências necessárias; faz sentido discutir mecanismos para aumentar a escala e o retorno social desses investimentos.

Há uma pergunta incômoda que deveria ser dirigida a todos os candidatos: como o Brasil pretende crescer se quase três quartos dos seus adolescentes não alcançam o nível básico de matemática? Esses gaps de aprendizado são poderosos freios à produtividade e à competitividade.

Resumo da ópera

O Pisa 2025 não revela uma crise súbita. Revela uma década de acomodação em um patamar muito baixo de resultados educacionais. Trata-se de um problema social, sem dúvida. Mas a escassez de talentos revela a sua face econômica. Empresas podem agir por conta própria – treinando, requalificando e até formando os profissionais de que precisam. Algumas conseguem fazer isso e adquirem uma vantagem competitiva. Mas, se uma empresa pode resolver seu skill gap, um país não resolve o seu sem melhorar a escola.

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Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

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