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O que o caso Häagen-Dazs ensina sobre mudanças de mercado
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Carlos Graieb
6 minutos de leitura 25.08.2026 14:52 comentários
Oráculo

O que o caso Häagen-Dazs ensina sobre mudanças de mercado

Segmento onde marca atua não está encolhendo, pelo contrário, e isso aumenta a pressão competitiva

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Carlos Graieb
6 minutos de leitura 25.08.2026 14:52 comentários 0
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O que o caso Häagen-Dazs ensina sobre mudanças de mercado
Foto: Divulgação
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Depois de quase três décadas no Brasil, a Häagen-Dazs deixará de ser distribuída no país. A General Mills, dona da marca, atribuiu a decisão a uma reformulação global de portfólio iniciada em março de 2026.

A saída fecha uma trajetória iniciada em 1997 e que incluiu, durante vinte anos, uma rede de lojas próprias. Ela ocorre poucos meses depois de a General Mills acertar a venda de Yoki, Kitano e de suas fábricas brasileiras à 3corações, por cerca de 800 milhões de reais.

Há uma diferença importante, porém: Häagen-Dazs não fazia parte dessa transação. Os sorvetes vendidos no Brasil eram importados da França e o encerramento da distribuição foi uma decisão adicional dentro da reorganização internacional do grupo.

Por que isso interessa

A retirada de uma das marcas mais conhecidas do segmento de sorvetes “premium” poderia ser interpretada como sinal de enfraquecimento do mercado brasileiro. Mas os dados apontam na direção contrária.

A Häagen-Dazs foi uma das marcas que ajudaram a estabelecer, no fim dos anos 1990, a ideia de um sorvete vendido por preço muito superior ao das marcas tradicionais. Ela sai do Brasil justamente esse segmento cresce mais rapidamente que o restante da indústria.

Estimativas citadas por diferentes fontes colocam o avanço anual dos sorvetes premium na faixa de 8% a 12%, contra algo entre 4% e 5% para os produtos tradicionais. O setor brasileiro de sorvetes movimenta aproximadamente R$ 14 bilhões por ano.

A decisão da General Mills tem a ver com sua estratégia de alocação de capital da General Mills e traz lições que se aplicam a qualquer mercado, não apenas o de sorvetes.

Lupa

A General Mills não divulgou os resultados da Häagen-Dazs no Brasil, nem informou margens, faturamento ou participação de mercado da marca. Por isso, não é possível afirmar que a operação fosse deficitária. Mas as informações disponíveis permitem levantar algumas hipóteses sobre o negócio.

Os potes comercializados no Brasil vinham de uma fábrica francesa que abastece dezenas de países. Isso deixava a operação exposta a câmbio, custos de importação e transporte internacional.

E sorvete é, por natureza, um negócio logisticamente peculiar. Exige cadeia refrigerada, armazenamento congelado e administração de freezers na ponta. É muito diferente de vender biscoitos, temperos ou outros alimentos secos.

Ao mesmo tempo, a concorrência no Brasil ficou mais acirrada. Marcas como Bacio di Latte, La Basque e Ben & Jerry’s, além de redes artesanais, passaram a disputar o mesmo consumidor. A Bacio di Latte expandiu das “gelaterias” para potes no varejo; a Borelli acelerou sua rede de franquias; supermercados desenvolveram marcas próprias; e novos operadores continuam entrando no setor.

Ou seja: enquanto a demanda aumentava, a vantagem competitiva da Häagen-Dazs podia estar diminuindo.

Panorama

O mercado que a Häagen-Dazs deixa para trás apresenta números bastante favoráveis.

Para 2026, a Abrasorvete projetou aumento de 16,3% no faturamento, depois de uma expansão estimada em 6,8% no ano anterior. Ondas de calor ajudam, mas a entidade também menciona crescimento da renda e aumento dos investimentos empresariais. Nada menos que 86,4% das companhias pesquisadas haviam investido recentemente em equipamentos, expansão de capacidade ou tecnologia.

No horizonte mais longo, a consultoria IMARC estima que o mercado brasileiro passe de US$ 1,47 bilhão em 2025 para aproximadamente US$ 2,16 bilhões em 2034, crescimento médio anual de 4,37%.

Dentro desse universo, o segmento premium é particularmente dinâmico. Embora tenha menos compradores, concentra uma parcela elevada dos gastos e apresenta tíquete médio superior a 44 reais.

Também está mudando a definição de produto premium. Ingredientes naturais, sabores diferenciados, origem das matérias-primas, métodos de produção e experiência de consumo começam a pesar mais na decisão. Crescem ainda opções vegetais, sem lactose, com menos açúcar e formulações associadas a saúde e bem-estar.

Os canais igualmente se multiplicam. Sorveterias, supermercados e vendedores ambulantes convivem com delivery, comércio eletrônico e consumo on the go. Seis em cada dez consumidores compraram sorvete para consumo fora do lar ao menos uma vez em 2024; entre eles, um terço utilizou e-commerce.

E chegam novos competidores. O caso mais vistoso é o da chinesa Mixue, que anunciou investimentos de aproximadamente R$ 3,2 bilhões, geração de 25 mil empregos e a ambição de chegar a 2 mil lojas no Brasil até 2030. Seu posicionamento é muito mais associado a escala e preço que ao superpremium, mas sua entrada mostra o grau de atratividade percebido no mercado.

A lição do caso Häagen-Dazs

A primeira lição é simples: crescimento de mercado e competitividade empresarial são coisas diferentes. Uma empresa pode participar de um setor em plena expansão e, ainda assim, perder pujança econômica. Custos logísticos, modelo de distribuição, exposição cambial, escala ou posicionamento podem deteriorar mais rapidamente do que a demanda cresce.

A segunda é que marca forte não basta para superar desafios de mercado. Häagen-Dazs continua sendo um nome reconhecido no Brasil. Há campanha nas redes sociais para que permaneça no país. Mas isso não compensa custos de importação nem o impacto de ter concorrentes com operação local potencialmente mais flexível.

Outro ponto é que mercados promissores podem ficar mais difíceis, em vez de mais fáceis. Crescimento atrai novos competidores. Novos competidores ampliam oferta, aceleram inovação e podem pressionar margens. No sorvete brasileiro, despontam redes locais, novos canais de venda e uma gigante chinesa disposta a colocar bilhões de reais no país.

Por fim, há uma questão de disciplina na alocação de capital. Uma unidade não precisa dar prejuízo para justificar uma saída. Basta que existam alternativas capazes de oferecer melhor retorno para o mesmo capital.

Resumo da ópera

A Häagen-Dazs não sai do Brasil porque o mercado encolhe. Pelo contrário. Sorvetes crescem. O premium cresce ainda mais. Há novos investimentos. A história tem a ver com a posição competitiva da empresa dentro do mercado. Um bom setor não garante um bom negócio. Uma marca forte não garante uma operação competitiva. E um modelo que funcionou durante anos não necessariamente continua sendo a melhor maneira de atuar num ambiente transformado. Essas são ideias relevantes para qualquer negócio.

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Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

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