O mercado comprou Flávio. Qual Flávio?
Perspectiva de vitória do opositor de Lula provocou reação forte e rara no câmbio, nos juros e na bolsa
A dianteira de Flávio Bolsonaro sobre Lula no primeiro turno da eleição presidencial provocou nesta segunda-feira, 5, uma reação rara nos mercados. O Ibovespa chegou a subir cerca de 9%, ultrapassou os 209 mil pontos, o dólar caiu para menos de 5 reais e as taxas de juros negociadas para os próximos anos recuaram fortemente.
Em outras palavras, houve uma reprecificação abrupta do risco político e fiscal brasileiro. Investidores passaram a considerar mais provável uma mudança na condução das contas públicas a partir de 2027.
Por que isso interessa
Parte da explicação para esses movimentos está no histórico dos governos petistas: o mercado associa o atual governo a aumento de gastos, crescimento da dívida e preferência por elevar receitas em vez de promover um ajuste concentrado nas despesas. Lula reforçou depois do primeiro turno sua resistência a um ajuste que, em sua avaliação, penalize mais pobres.
A aposta em Flávio Bolsonaro, no entanto, contém uma dose importante de fé. Seu programa e as manifestações de seus assessores apontam para contenção de gastos e redução da dívida, mas ainda dizem pouco sobre as decisões difíceis que serão necessárias para chegar lá. A agenda fiscal do candidato ainda não foi detalhada, como reconhecem os analistas de mercado.
Panorama
Os números mostram o tamanho da aposta. A curva de juros caiu aproximadamente um ponto percentual em praticamente todos os prazos; o contrato para janeiro de 2031 chegou a 12,65% ao ano.
Mudaram também as expectativas para a Selic. Para novembro, a probabilidade de corte de 0,25 ponto passou de 62,8% para 77%, enquanto a chance de manutenção em 13,75% despencou de 27% para 5%. Para dezembro, ganhou força a possibilidade de um corte de 0,50 ponto.
Na bolsa, alguns bancos enxergam espaço para muito mais. O BTG calcula valorização potencial de 32% a 45% num cenário favorável após a eleição. O J.P. Morgan estima que as ações brasileiras ainda podem passar por importante valorização se aumentar a confiança numa política fiscal mais sólida.
Lupa
A queda dos juros beneficia especialmente empresas voltadas ao mercado interno e aquelas que carregam dívidas elevadas. Varejo, construção, fintechs e outros negócios dependentes do crédito estão entre os candidatos a ganhar.
Empresas de energia, saneamento e infraestrutura também podem ser beneficiadas porque projetos de longo prazo ficam mais atraentes quando cai o custo do dinheiro. O BBI estima que uma redução de meio ponto nos juros reais de longo prazo poderia aumentar entre 5% e 6% os preços-alvo de empresas como Sabesp, Equatorial, Energisa, Copasa e Auren.
No radar
O que se conhece da agenda de Flávio Bolsonaro ajuda a explicar o entusiasmo — e seus limites. Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha, fala em um “tesouraço”: reduzir despesas, extinguir ao menos dez ministérios, cortar cargos comissionados e supersalários. São boas iniciativas, mas sem impacto fiscal profundo. Ela também fala em mudar as regras fiscais para estabilizar e depois reduzir a dívida, mas os detalhamento é escasso.
Adolfo Sachsida, integrante da equipe, coloca o ajuste fiscal como primeira prioridade e afirma que seria possível colocar a dívida em trajetória de queda em 18 meses. O segundo eixo seria elevar a produtividade por meio de menos burocracia, menos regulação, digitalização e melhores regras para investimentos.
Há outras indicações concretas: reduzir o IOF aos níveis de 2022, eliminar o imposto de exportação de petróleo, rever pontos da reforma tributária e ampliar a exploração de petróleo.
Mas falta responder à pergunta decisiva: de onde virá o ajuste fiscal? A campanha de segundo turno deveria trazer mais informações sobre o tema, mas é improvável que isso aconteça.
Resumo da ópera
O mercado não está comemorando uma política econômica já definida, mas antecipando uma possibilidade: menos risco fiscal, juros menores e dívida sob controle num eventual governo Flávio Bolsonaro. A reação desta segunda mostra quanto dinheiro pode mudar de direção se essa expectativa se consolidar. O radar das empresas deve agora sair das pesquisas eleitorais e apontar para os detalhes do programa: tamanho do corte de gastos, despesas atingidas, novas regras fiscais e equipe encarregada de executá-las. É aí que a aposta começará a ser confrontada com a realidade.
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