O desafio é transformar a adoção de IA em produtividade
Pesquisa mostra que as empresas brasileiras ainda não usam a IA para transformar negócios. No que a política poderia ajudar?
A inteligência artificial já faz parte do cotidiano da maioria das empresas brasileiras, mas está longe de transformar a maneira como elas trabalham. Essa é a principal conclusão da pesquisa Da Adoção à Escala: A maturidade da inteligência artificial nas empresas brasileiras, realizada pela MIT Sloan Management Review Brasil em parceria com a TOTVS.
O levantamento, que ouviu 583 empresas, mostra que 80% já utilizam ou experimentam ferramentas de IA. No entanto, apenas 7% incorporaram a tecnologia à estratégia e aos principais processos de negócio. Para boa parte, a adoção se resume ao uso de assistentes digitais e ferramentas que executam tarefas pontuais.
Por que isso importa
O estudo oferece uma oportunidade para qualificar o debate eleitoral sobre inteligência artificial. Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro apresentam propostas para estimular a adoção da tecnologia, embora partam de concepções diferentes sobre o papel do Estado.
O desafio, porém, já não é convencer as empresas brasileiras a utilizar IA, mas sim criar condições para que elas a incorporem aos processos produtivos e transformem seu uso em ganhos de eficiência, inovação e crescimento.
Isso exige uma discussão mais concreta sobre capacitação profissional, financiamento e avaliação de resultados. São questões especialmente importantes para empresas médias, que não costumam dispor das equipes técnicas e dos recursos das grandes corporações.
Panorama
A pesquisa revela a distância entre experimentar ferramentas de IA e reorganizar uma empresa para aproveitar seu potencial.
Cerca de 70% das organizações utilizam a tecnologia por meio de comandos simples ou assistentes. Em 40% delas, os processos de trabalho permanecem praticamente inalterados; somente 7% realizaram uma reformulação completa de processos de ponta a ponta.
A infraestrutura também apresenta limitações. Embora 68% das empresas utilizem serviços de computação em nuvem, apenas 8% integraram amplamente a IA aos seus sistemas de gestão. Isso dificulta a utilização conjunta de informações de diferentes áreas e a automação de atividades mais complexas.
A capacitação constitui um terceiro gargalo: apenas 7% oferecem treinamento estruturado em IA a todos os colaboradores. E somente 14% possuem uma política formal de governança da tecnologia.
Há resultados positivos. Sete em cada dez empresas relatam ganhos de velocidade ou redução de custos. Mas apenas 31% desenvolveram novos produtos, serviços ou processos baseados em IA.
Segundo o levantamento, 86% não medem sistematicamente os custos relacionados à IA e 88% não acompanham de forma integrada seus resultados operacionais e financeiros.
Lupa: a pesquisa e as candidaturas
As propostas de Lula enfatizam a soberania digital, a construção de capacidade tecnológica nacional e o papel do Estado no financiamento da inovação.
A pesquisa sugere uma pergunta ao candidato: como assegurar que os investimentos em infraestrutura, tecnologia e crédito se traduzam em mudanças concretas na operação das empresas?
Uma possibilidade é aperfeiçoar instrumentos já existentes, como o Brasil Mais Produtivo e as linhas de financiamento à digitalização do BNDES e da Finep, que oferecem apoio à modernização de processos, consultorias e capacitação. A prioridade seria ampliar seu alcance, especialmente entre empresas médias, e dar maior atenção à integração da IA aos sistemas de gestão. Seria fundamental avaliar os programas pelos ganhos de produtividade e não apenas pelo volume de recursos desembolsados ou pelo número de empresas atendidas.
O programa de Flávio Bolsonaro enfatiza a redução de barreiras burocráticas, a produtividade e a difusão tecnológica. Seu plano contempla uma estratégia de inteligência artificial voltada a micro, pequenas e médias empresas, além de iniciativas de qualificação profissional e parcerias com o setor privado.
O diagnóstico da pesquisa conversa de perto com essa proposta. Facilitar o acesso às ferramentas e reduzir obstáculos à inovação são medidas importantes, mas não resolvem automaticamente as dificuldades de implantação.
A campanha deveria detalhar como pretende oferecer assistência técnica, estimular a integração de sistemas e apoiar a formação de profissionais. Também seria necessário definir metas, responsabilidades e critérios para avaliar os resultados.
Radar empresarial
A pesquisa oferece às entidades empresariais uma oportunidade para apresentar reivindicações objetivas aos candidatos.
A primeira é ampliar o apoio à integração tecnológica. Programas de digitalização devem contemplar a conexão da IA aos sistemas de gestão, a modernização de processos e os serviços especializados necessários à implantação. Para empresas médias, esse apoio pode ser mais relevante do que o financiamento da compra de novas ferramentas.
A segunda é vincular capacitação a projetos empresariais concretos. Cursos genéricos de familiarização com IA têm sua utilidade, mas ganhos maiores dependem de profissionais capazes de aplicar a tecnologia às atividades de suas empresas.
A terceira é exigir metas e avaliação de produtividade. Programas públicos deveriam (embora raramente o façam) demonstrar resultados por meio de indicadores como redução de custos, tempo de execução de tarefas, qualidade dos processos e geração de receitas.
Nada disso requer a criação de novos programas ou o aumento do gasto público. Parte da agenda pode ser atendida pelo aperfeiçoamento dos instrumentos existentes e pela cooperação com o setor privado.
Resumo da ópera
A inteligência artificial ainda não transforma os processos das empresas brasileiras. A pesquisa da MIT Sloan Management Review Brasil e da TOTVS mostra que o principal desafio é converter a adoção da tecnologia em produtividade e inovação. A campanha presidencial é uma oportunidade de cobrar de Lula e Flávio Bolsonaro compromissos concretos com integração tecnológica, capacitação e avaliação de resultados. O que importa é quanto as empresas conseguirão produzir, inovar e crescer com o uso da IA.
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