O crime mudou e as empresas precisam fazer o mesmo
20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública traz informação estratégica para gestão de riscos e interlocução com setor público
Publicado nesta quinta-feira, 23, o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública sustenta que o Brasil vive uma transição: enquanto homicídios continuam em queda, organizações criminosas diversificam suas fontes de receita, expandem fraudes digitais e fortalecem mercados ilícitos menos violentos.
Ao mesmo tempo, o país registra o maior gasto público da história com segurança, mas continua convivendo com graves problemas de gestão política.
Por que isso interessa
Para empresas e executivos, o Anuário oferece um novo mapa de riscos. A principal mensagem é que a criminalidade patrimonial está se tornando menos violenta, mas também mais sofisticada. Furtos substituem roubos; o celular passa a ser mais valioso pelos dados que contém do que pelo aparelho em si; golpes digitais ganham protagonismo; e a segurança privada amplia seu espaço como complemento da atuação estatal.
A pesquisa também fornece parâmetros objetivos para avaliar a qualidade da gestão pública: o país aumenta continuamente seus gastos, mas ainda enfrenta dificuldades de coordenação federativa, planejamento e mensuração de resultados.
O novo perfil da criminalidade exige outra estratégia empresarial
Os indicadores patrimoniais revelam uma mudança importante.
Em 2025, os roubos caíram de forma generalizada: veículos (-20,6%), celulares (-18,6%), cargas (-19,8%), estabelecimentos comerciais (-18,3%), residências (-19,9%) e transeuntes (-23,4%). À primeira vista, o cenário parece amplamente positivo.
Mas o Anuário alerta para a mudança de natureza da criminalidade. O furto de celulares voltou a crescer e responde por aproximadamente 60% das subtrações desses aparelhos. Mais importante que o telefone passou a ser o acesso às contas bancárias, documentos digitais e identidades financeiras das vítimas.
(É importante chamar atenção para a provável subnotificação desse tipo de incidente. O Anuário estima que o número de vítimas possa chegar a 14 milhões, embora as estatísticas registrem 792 mil ocorrências de furto e roubo.)
Para empresas, o novo cenário significa que a gestão de riscos não pode depender apenas da segurança patrimonial tradicional. Cresce a importância de componentes como cibersegurança, proteção de dados, autenticação de clientes, prevenção a fraudes financeiras e gestão de identidade digital na gestão corporativa.
A segurança privada entra em um novo ciclo de expansão
Outra tendência relevante para o mercado é o fortalecimento da segurança privada.
Após quase uma década de retração, o número de vigilantes voltou a crescer e aproxima-se novamente de 600 mil profissionais, impulsionado pela recuperação econômica e pelo novo Estatuto da Segurança Privada.
O setor apresenta sinais claros de profissionalização: aumento da escolaridade média, maior participação feminina, crescimento dos salários e expansão das empresas especializadas.
Para empresas contratantes, isso significa um mercado mais estruturado e regulado. Ao mesmo tempo, evidencia uma tendência de longo prazo: parte crescente da proteção patrimonial tende a ser fornecida por operadores privados, complementando — e não substituindo — a atuação das forças públicas.
O gasto público aumenta, mas governança é problema
Em 2025, o Brasil destinou R$ 163 bilhões à segurança pública — o maior valor da série histórica.
Os estados continuam financiando cerca de 80% de toda a política nacional de segurança, enquanto União e municípios reduziram suas despesas em termos reais. Mais grave, quase 60% dos recursos aparecem classificados na rubrica genérica “demais subfunções”, impedindo identificar com precisão sua destinação.
Outro dado chama atenção: a União não registrou despesas classificadas como “Informação e Inteligência” em 2024 nem em 2025, apesar de essa ser justamente a esfera responsável pela coordenação nacional do combate ao crime organizado.
Na avaliação do Anuário, o desafio brasileiro não é prover recursos, mas gastar melhor, produzir informações padronizadas e construir mecanismos de coordenação entre os diferentes níveis de governo.
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