A paz no Irã e seus efeitos no Brasil
Petróleo e agronegócio serão as duas áreas estratégicas da economia nacional mais diretamente afetadas se o conflito cessar
O acordo alcançado entre Estados Unidos e Irã no fim de semana abre a perspectiva de encerramento de um conflito que, durante meses, desorganizou os mercados globais de energia e insumos agrícolas. Embora a implementação integral ainda dependa de negociações adicionais sobre o programa nuclear iraniano e da estabilidade política na região, o simples retorno da normalidade no Estreito de Ormuz já representa uma mudança relevante para duas áreas estratégicas da economia brasileira: petróleo e agronegócio.
Por que isso importa
Durante a guerra, como exportador líquido de petróleo, o Brasil se beneficiou da alta dos preços internacionais e do redirecionamento da demanda asiática para fornecedores considerados “mais seguros”. Ao mesmo tempo, enfrentou riscos crescentes de encarecimento do diesel e escassez de fertilizantes, com impacto direto no agronegócio.
Em artigo publicado em 1º de abril pelo Policy Center for the New South, o economista Otaviano Canuto observou que os efeitos do conflito sobre o Brasil eram múltiplos, mas que a principal preocupação estava, sobretudo, nos fertilizantes, que dependem de combustíveis fósseis para a sua fabricação. Quase 90% das necessidades brasileiras desses produtos são supridas por importações
O petróleo perde impulso
A consequência mais imediata do acordo deve ser a redução gradual do prêmio de risco geopolítico incorporado ao petróleo.
Durante o conflito, o fechamento de Ormuz colocou em risco uma rota por onde normalmente passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo. O receio de interrupções prolongadas levou compradores asiáticos a ampliar suas compras de petróleo brasileiro.
A normalização da navegação tende a reduzir essa demanda extraordinária. O resultado provável é um petróleo mais barato e menor pressão sobre combustíveis, transporte e inflação.
Para o governo brasileiro, isso representa um efeito misto. O alívio inflacionário é positivo, mas a arrecadação extraordinária associada ao petróleo caro tende a diminuir. Estudos citados por Canuto indicavam que um Brent acima de US$ 100 por barril poderia acrescentar quase 1% do PIB em receitas públicas adicionais.
O agronegócio ganha mais do que perde
Se o setor de petróleo perde parte dos ganhos obtidos durante a crise, a agricultura provavelmente será a principal beneficiária da paz.
O fechamento de Ormuz não afetou apenas petróleo e gás. A rota é fundamental para o comércio global de fertilizantes e de seus insumos. Aproximadamente 43% da ureia transportada por via marítima no mundo, 44% do enxofre e mais de um quarto da amônia dependem da região do Golfo.
O Brasil encontra-se particularmente exposto porque é o maior importador mundial de fertilizantes e depende do exterior para a maior parte do nitrogênio, fósforo e potássio consumidos pelo agronegócio.
Irã, Catar, Arábia Saudita, Omã e Emirados Árabes Unidos responderam por 36% das importações brasileiras de ureia em 2025. Com o fechamento de Hormuz, os preços da ureia chegaram a subir 35% em poucas semanas.
O problema não desaparece
A assinatura do acordo não significa retorno imediato à normalidade.
Parte da infraestrutura energética e logística da região sofreu danos. Além disso, estoques foram consumidos, contratos foram interrompidos e fluxos comerciais precisaram ser reorganizados.
O mercado de fertilizantes tende a demorar ainda mais para se estabilizar. Durante a crise, produtores em diferentes países reduziram produção, armazenaram estoques ou buscaram fornecedores alternativos. Mesmo com a reabertura de Ormuz, a recomposição dessas cadeias exigirá tempo.
Há também um fator estrutural. Muitos importadores passaram os últimos meses construindo rotas alternativas para reduzir sua dependência do Golfo. Índia, Japão, China e vários países europeus aceleraram estratégias de diversificação de fornecedores. Parte dessas mudanças deverá permanecer.
O que observar agora
O principal indicador para os próximos meses será a velocidade de recuperação dos mercados de fertilizantes.
Antes do acordo, estudos internacionais apontavam risco de déficit de até 3 milhões de toneladas de fosfato no Brasil caso as restrições persistissem até o segundo semestre. A trégua reduz significativamente essa probabilidade.
Mas os riscos geopolíticos continuam presentes. O entendimento não resolveu a questão nuclear iraniana, apenas criou uma nova rodada de negociações. Tampouco eliminou as tensões entre Irã e Israel, que seguem divergindo sobre segurança regional e sobre o futuro das capacidades militares iranianas.
A paz reduz os riscos econômicos mais imediatos para o Brasil. Mas ainda não devolve ao mercado a certeza de que o Golfo voltou a ser uma região estável.
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