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A paz no Irã e seus efeitos no Brasil

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Redação O Antagonista
4 minutos de leitura 15.06.2026 16:22 comentários
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A paz no Irã e seus efeitos no Brasil

Petróleo e agronegócio serão as duas áreas estratégicas da economia nacional mais diretamente afetadas se o conflito cessar

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Redação O Antagonista
4 minutos de leitura 15.06.2026 16:22 comentários 0
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A paz no Irã e seus efeitos no Brasil
Foto: Domínio público, wikimedia commons
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O acordo alcançado entre Estados Unidos e Irã no fim de semana abre a perspectiva de encerramento de um conflito que, durante meses, desorganizou os mercados globais de energia e insumos agrícolas. Embora a implementação integral ainda dependa de negociações adicionais sobre o programa nuclear iraniano e da estabilidade política na região, o simples retorno da normalidade no Estreito de Ormuz já representa uma mudança relevante para duas áreas estratégicas da economia brasileira: petróleo e agronegócio.

Por que isso importa

Durante a guerra, como exportador líquido de petróleo, o Brasil se beneficiou da alta dos preços internacionais e do redirecionamento da demanda asiática para fornecedores considerados “mais seguros”. Ao mesmo tempo, enfrentou riscos crescentes de encarecimento do diesel e escassez de fertilizantes, com impacto direto no agronegócio.

Em artigo publicado em 1º de abril pelo Policy Center for the New South, o economista Otaviano Canuto observou que os efeitos do conflito sobre o Brasil eram múltiplos, mas que a principal preocupação estava, sobretudo, nos fertilizantes, que dependem de combustíveis fósseis para a sua fabricação. Quase 90% das necessidades brasileiras desses produtos são supridas por importações

O petróleo perde impulso

A consequência mais imediata do acordo deve ser a redução gradual do prêmio de risco geopolítico incorporado ao petróleo.

Durante o conflito, o fechamento de Ormuz colocou em risco uma rota por onde normalmente passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo. O receio de interrupções prolongadas levou compradores asiáticos a ampliar suas compras de petróleo brasileiro.

A normalização da navegação tende a reduzir essa demanda extraordinária. O resultado provável é um petróleo mais barato e menor pressão sobre combustíveis, transporte e inflação.

Para o governo brasileiro, isso representa um efeito misto. O alívio inflacionário é positivo, mas a arrecadação extraordinária associada ao petróleo caro tende a diminuir. Estudos citados por Canuto indicavam que um Brent acima de US$ 100 por barril poderia acrescentar quase 1% do PIB em receitas públicas adicionais.

O agronegócio ganha mais do que perde

Se o setor de petróleo perde parte dos ganhos obtidos durante a crise, a agricultura provavelmente será a principal beneficiária da paz.

O fechamento de Ormuz não afetou apenas petróleo e gás. A rota é fundamental para o comércio global de fertilizantes e de seus insumos. Aproximadamente 43% da ureia transportada por via marítima no mundo, 44% do enxofre e mais de um quarto da amônia dependem da região do Golfo.

O Brasil encontra-se particularmente exposto porque é o maior importador mundial de fertilizantes e depende do exterior para a maior parte do nitrogênio, fósforo e potássio consumidos pelo agronegócio.

Irã, Catar, Arábia Saudita, Omã e Emirados Árabes Unidos responderam por 36% das importações brasileiras de ureia em 2025. Com o fechamento de Hormuz, os preços da ureia chegaram a subir 35% em poucas semanas.

O problema não desaparece

A assinatura do acordo não significa retorno imediato à normalidade.

Parte da infraestrutura energética e logística da região sofreu danos. Além disso, estoques foram consumidos, contratos foram interrompidos e fluxos comerciais precisaram ser reorganizados.

O mercado de fertilizantes tende a demorar ainda mais para se estabilizar. Durante a crise, produtores em diferentes países reduziram produção, armazenaram estoques ou buscaram fornecedores alternativos. Mesmo com a reabertura de Ormuz, a recomposição dessas cadeias exigirá tempo.

Há também um fator estrutural. Muitos importadores passaram os últimos meses construindo rotas alternativas para reduzir sua dependência do Golfo. Índia, Japão, China e vários países europeus aceleraram estratégias de diversificação de fornecedores. Parte dessas mudanças deverá permanecer.

O que observar agora

O principal indicador para os próximos meses será a velocidade de recuperação dos mercados de fertilizantes.

Antes do acordo, estudos internacionais apontavam risco de déficit de até 3 milhões de toneladas de fosfato no Brasil caso as restrições persistissem até o segundo semestre. A trégua reduz significativamente essa probabilidade.

Mas os riscos geopolíticos continuam presentes. O entendimento não resolveu a questão nuclear iraniana, apenas criou uma nova rodada de negociações. Tampouco eliminou as tensões entre Irã e Israel, que seguem divergindo sobre segurança regional e sobre o futuro das capacidades militares iranianas.

A paz reduz os riscos econômicos mais imediatos para o Brasil. Mas ainda não devolve ao mercado a certeza de que o Golfo voltou a ser uma região estável.

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