PL do aborto e a arte política de brincar com questões sensíveis
Temas incendiários, como o aborto, são tratados de maneira desrespeitosa e irresponsável pelos políticos
A recente aprovação da urgência do PL 1904 pela Câmara, que tentava equiparar abortos após 22 semanas de gravidez a homicídios, trouxe à tona a velha estratégia dos políticos de usar temas sensíveis como termômetros para medir até onde podem ir. No final das contas, em vez de levar a plenário, o presidente da Câmara decidiu criar uma comissão para examinar o projeto de forma mais ponderada, a partir do segundo semestre.
Temas incendiários, como o aborto, são tratados de maneira desrespeitosa e irresponsável pelos políticos. Em vez de buscar soluções sérias, eles preferem criar um espetáculo para ganhar likes e apoio superficial. O problema é que a população, além de não exigir seriedade, muitas vezes premia esse circo. Se em temas tão sensíveis e sérios não se exige respeito, por que os políticos respeitariam questões como delações premiadas, dívidas dos partidos e impostos?
A gritaria em torno do PL 1904, com frases de efeito como “toda vida é uma vida” e “criança não é mãe”, só serviu para inflamar os ânimos e desviar o foco da real discussão. É uma discussão com argumentos que só convencem convertidos, não são capazes de fazer ninguém mudar de opinião e não promovem um debate sério e construtivo.
Do lado progressista, tratou-se o aborto de forma banal, como se fosse uma simples ida ao shopping, com hashtags superficiais que nada contribuem para um entendimento profundo do tema. Teve até deputada se aliando a fandom de pop star fingindo que era pela causa.
No campo conservador, a proposta de equiparar aborto a homicídio foi vendida como uma solução para diminuir os abortos e salvar vidas, sem qualquer base jurídica sólida. Na prática, a qualidade jurídica do projeto era tão ruim que poderia, na verdade, aliviar penas de homicidas. A ideia de que a simples equiparação legal resolveria o problema do aborto é uma falácia, que apenas serviu para enganar aqueles que acreditam que se trata de assassinato de bebês.
A questão é que, ao fim e ao cabo, os políticos usam esses temas sensíveis como termômetros para testar os limites da seriedade que o público exige deles. E o resultado deste caso mostrou que há um teto para a falta de seriedade, mas que a sociedade ainda premia aqueles que não tratam o assunto com a devida gravidade.
O projeto, com sua fraca base jurídica, não teve apoio de lado nenhum. Até figuras conservadoras, como Michele Bolsonaro, que é contrária à assistolia fetal, se calaram sobre o projeto como um todo.
Este episódio é um lembrete de que, se a população não exigir seriedade dos políticos, não são eles que terão a iniciativa de ser sérios. Quem planta vento, colhe tempestade.
Nikolas pede ao STF afastamento de Paulo Gonet
Fux não consegue acessar íntegra do celular de Vorcaro
“Se tivesse vergonha na cara, pediria renúncia”, diz Zema sobre Gonet
Vorcaro tratava Otto Alencar como “conselheiro” e “comandante”
O verdadeiro pixuleco eleitoral